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Semiótica de Peirce

Fragmentos esparsos

Peirce nunca escreveu um tratado de semiótica. As idéias de sua teoria dos signos precisaram ser coletadas de algumas dezenas de artigos publicados, mas principalmente de manuscritos e anotações em cadernos e de cartas que trocou ao longo de quase meio século. A compilação dos textos coletados de tempos e fontes tão diversas mostra uma teoria em constante evolução. Não houve um só momento em que Peirce, ao se debruçar sobre sua classificação dos signos, não introduzisse novos termos e revisasse sua produção anterior. Ainda assim, na sua vasta arquitetura filosófica, a semiótica é um liame tênue, mas capaz de colocar em contato as várias outras teorias e doutrinas que Peirce desenvolveu. Ela comparece em artigos e cartas dedicados à lógica, à matemática e à metafísica, obrigando Peirce a adaptar a terminologia semiótica ao vocabulário de cada uma dessas ciências. Por isso, a tarefa de mapear a evolução da semiótica de Peirce exige de seus comentadores o conhecimento nas várias disciplinas com as quais dialogou, o que só foi possível recentemente e, ainda assim, de maneira incompleta.

Uma questão de saída, que tem produzido muita polêmica entre os especialistas, é sobre como devemos encarar o desenho geral da evolução do pensamento de Peirce. Alguns, como Ransdell, crêem que ele manteve durante toda sua carreira a essência dos argumentos apresentados no Nova Lista. Murphey (1993, p.3), por outro lado, afirma que a arquitetura filosófica de Peirce, incluindo sua semiótica, assemelha-se a uma casa cujo interior está em contínua reforma, embora preservando o máximo de sua estrutura básica. Short (2004) também afirma que Peirce abandonou muitas de suas idéias juvenis, principalmente aquelas ligadas ao seu passado nominalista. Savan (1977, p. 179) chega a dizer que teoria dos signos do Peirce maduro tem pouco a ver com sua primeira formulação na década de 1960. É preciso, portanto, conhecermos um pouco sobre como essas mudanças podem ter acontecido.

O estudo dos signos está presente na vida intelectual de Peirce desde pelo menos meados da década de 1860, quando ele era ainda um aluno de graduação em Harvard. Em 1865, com apenas 26 anos, Peirce fez uma série de conferências sobre a lógica da ciência, em que ele demonstra dominar a filosofia transcendental de Kant, os fundamentos da lógica e da teoria da probabilidade, bem como a questão sobre a representação em geral – ou como surgem as idéias na mente humana (Queiroz, 2004, p. 73). A questão da origem das nossas primeiras concepções é um problema lógico de primeira magnitude, pois dele depende a garantia de verdade das proposições. Peirce estudou como esse problema foi tratado pelos grandes pensadores que o antecederam, extraindo lições desde os filósofos da Antiguidade, principalmente Platão e Aristóteles, passando pelos medievais até chegar aos seus contemporâneos do século 19.

O mais próximo que temos de uma exposição sistemática da teoria dos signos, feita pelo próprio punho de Peirce, é uma brochura escrita para acompanhar de uma série de palestras que deu no Instituto Lowell, em Cambridge, durante o mês de outubro de 1903, dedicadas principalmente à lógica. Ela é normalmente referida como Syllabus entre os comentadores, muitos dos quais a consideram a versão mais acabada de sua semiótica. Nela aparece, por exemplo, o famoso triângulo invertido com dez classes de signos criados a partir de três divisões triádicas.

No entanto, Peirce jamais considerou o Syllabus como a palavra final sobre sua teoria dos signos. Como veremos, a classificação de 1903, representou apenas o início de uma nova rodada de revisão criativa de sua semiótica que se estendeu pelos anos de 1905 e 1906 e que, na verdade, jamais se completou. As tricotomias, que no Syllabus eram três, a partir de 1905 passaram a ser dez, com a perspectiva de que as classes de signos poderiam ser contadas às milhares. Entre 1907 e 1909, Peirce havia levado sua semiótica a direções tão novas que a classificação do Syllabus nem sequer era considerada por ele um ponto de partida para seus novos exercícios classificatórios.

Síntese de tradições

Peirce derivou sua concepção de semiótica como lógica provavelmente da leitura dos filósofos empiristas ingleses. John Locke em 1690 já afirmara a necessidade de um novo tipo de lógica, que batizou de semeiotic, explicando que se trataria de uma doutrina dos signos que a mente faz uso para o entendimento das coisas. Ainda na tradição britânica, Peirce foi influenciado pela lógica de Stuart Mill, bem como pelos escritos de William Hamilton. O empirismo dos ingleses enfatizava a importância da inferência indutiva e os conceitos de conotação (as qualidades predicáveis de um termo) e denotação (as coisas às quais um termo se aplica) como quantidades lógicas fundamentais. Os lógicos ingleses consideram essas duas quantidades essenciais para a classificação das formas de raciocínio e elas também exerceram um papel importante na formulação da semiótica de Peirce.

No entanto, já nos seus primeiros textos Peirce afirma que essas duas quantidades não dão conta de um fenômeno central na lógica, que é o crescimento ou evolução do significado dos termos. Por isso, ele expande a dicotomia denotação/conotação introduzindo um terceiro elemento: a informação (chamada, mas tarde de significação). A informação é um componente idealista lançado por Peirce no interior da lógica empirista, mas os desdobramentos dessa introdução teriam conseqüências futuras importantes para sua teoria dos signos, principalmente em sua fase madura, quando ele abraçou a realidade da terceiridade. Enquanto a semiótica misturava-se indissoluvelmente com a metafísica, a informação passou a ser o fundamento de um tipo de “realismo idealista”, ou idealismo objetivo (Ibri, 1992, p. 55 e ss), que prega serem as formas universais os agentes que determinam os objetos do mundo.

Também é preciso lembrar que uma das grandes batalhas intelectuais de Peirce foi produzir uma síntese filosófica que pudesse extrair o melhor das tradições idealista (germânica) e empirista (britânica) sem perder de vista os últimos desdobramentos científicos de sua época. De um lado, essa preocupação que o levou a um mergulho na filosofia medieval, tentando encontrar as raízes das duas tradições que ele procurara unificar. A partir da leitura de escolásticos como William Occam e Duns Scotus, Peirce chegou à teoria dos signos dos estóicos e, principalmente, à definição de implicação material creditada a Filo de Megara, considerada por Peirce como a mais essencial das relações lógicas. De outro, levou-o a leitura dos grandes nomes da filosofia alemã, como o filósofo matemático Leibniz e os idealistas Hegel e Schiller (Esposito, 1999, L1).

O lado naturalista de Peirce, vinculado a sua prática como químico e geodésico e responsável por desenhar e realizar experimentos, também teve forte influência no desenvolvimento de sua semiótica. Peirce estava atento aos desdobramentos do evolucionismo das espécies lançado por Darwin e das muitas vantagens de se realizar uma classificação dos elementos químicos de Mendeleev segundo suas valências e possibilidades de ligação. Peirce também estudou a classificação zoológica realizada por Louis Agassiz, de quem ele foi um aluno direto (Esposito, 1999, L1).

Para Peirce, a ciência deveria começar com um esforço para desvendar e elencar as classes naturais dadas pela observação – ou seja, pela fenomenologia. Feita a tipologia, a ciência deveria então proceder em classificar, isto é, arranjar as classes naturais de acordo com suas relações e afinidades. Esse procedimento deveria produzir uma classificação arquitetônica de todas as possíveis ciências (não só as atuais, mas também as futuras que se encaixariam nas lacunas deixadas abertas), em que as mais abstratas, como a matemática, deveriam oferecer subsídios para as mais empíricas.

A primazia da matemática no edifício classificatório das ciências, bem como seu papel de provedora de subsídios para as demais ciências, fizeram com que Peirce mantivesse uma incessante pesquisa sobre os fundamentos da matemática e sua relação com outras ciências, principalmente com a lógica. Vem da matemática, por exemplo, a terminologia de três categorias. Do estudo da relação entre lógica e matemática nasceu uma lógica algébrica, que Peirce desenvolveu independentemente de Frege. Peirce também produziu uma axiomatização dos números naturais e estudou detalhadamente os postulados e teoremas da geometria euclidiana, bem como as conseqüências das novas geometrias propostas por Riemann e Lobatchevski. Esses estudos o levaram a pesquisar a noção de relação, de infinito e de contínuo, que ele procurou aplicar a um tipo especial de topologia estreitamente relacionada à sua semiótica e à sua lógica gráfica.

Nas primeiras tentativas de classificar as ciências, a lógica aparecia como um ramo subalterno da semiótica: enquanto esta última se preocupava com signos em geral, caberia à primeira focar sua atenção nos símbolos e nas figuras lógicas diretamente relacionadas a eles: o termo, a proposição e o argumento (este último também chamado de silogismo ou inferência). A primeira contribuição importante de Peirce para a lógica, ainda na década de 1860, foi uma classificação dos silogismos aristotélicos sob a égide de suas categorias. Mais tarde, Peirce passou a considerar semiótica e lógica como sinônimas (Houser, 1992, p. xxx) − e boa parte de sua pesquisa concentrou-se na produção de uma classificação para todos os signos possíveis.

A esse trabalho de desvendar tipologias de signos e classificá-las Peirce deu o nome de gramática especulativa, que deveria ser o primeiro ramo da semiótica. O segundo grande ramo da semiótica é a lógica crítica, considerada como a ciência da verdade das representações, ou seja, o estudo da possibilidade de um signo representar seu objeto verdadeiramente. Por fim, Peirce concebeu a retórica universal (ou metodêutica) como o terceiro ramo da semiótica, definindo-a como o estudo dos efeitos do signo sobre seus intérpretes – ou, dito de outra maneira, o estudo de como a “forma” é transmitida do objeto ao interpretante, tendo o signo como veículo. É sob o ponto de vista da retórica que a semiose é vista como comunicação orientada para um propósito. Na sua maturidade, Peirce defendeu que a semiose e a comunicação não se restringem a mentes humanas, mas são fenômenos ontológicos que produzem a comunhão entre todas as mentes com a totalidade de uma quase-mente universal (Murphey, 1993, p. 353).

Pretendemos nos concentrar aqui na evolução da semiótica de Peirce, mas não poderemos deixar de relacioná-la com outros campos de interesse filosófico de Peirce, como sua cosmologia e, especialmente, o seu pragmatismo. Afinal, boa parte dos esforços de Peirce para desenvolver sua teoria dos signos, notadamente após 1900, deveu-se à sua tentativa de oferecer uma prova rigorosamente lógica – ou, ao menos, filosoficamente consistente – à sua versão do pragmatismo (que Peirce às vezes prefere chamar de pragmaticismo, por razões que veremos a seguir).

É especialmente interessante acompanhar como a semiótica, inicialmente usada por Peirce como um instrumento de prova do método pragmatista, vai aos poucos crescendo em importância para abranger a ação do signo em todas as dimensões possíveis da realidade, e não apenas na clarificação dos conceitos, como se propunha originalmente o pragmatismo (Houser, 1992, p. xxxv).

Vamos ver, sucintamente, como essa evolução se deu.

Primeira fase: 1867 a  1883 – O signo triádico e a negação da intuição cartesiana

A teoria dos signos de Peirce começa a se desenvolver já nos primeiros artigos publicados por ele, entre 1867 e 1871. O primeiro deles, que muitos scholars consideram a mais importante contribuição de Peirce para a filosofia, foi o “Sobre Uma Nova Lista de Categorias” (1867), referido normalmente na forma abreviada de Nova Lista. Nele, Peirce articula uma revisão das tábuas de categorias de Aristóteles e Kant, expondo pela primeira vez sua ontologia tripartite. Nos dois anos seguintes (1868 e 1869), Peirce publica três outros artigos no Journal of Speculative Philosophy, hoje referidos como a “série sobre a cognição”. Ele mantém sua preocupação com a origem do conhecimento, mas agora se propõe a apresentar uma alternativa para a gnosiologia cartesiana. Peirce refuta duramente a idéia de que o conhecimento se funda sobre uma dúvida artificial, como é o caso de cogito. Ao contrário, defende que a pesquisa comece com uma dúvida genuína sobre o mundo, procurando a resposta sem que tenhamos que nos despir de nossos preconceitos, mas corrigindo-os ao longo da própria pesquisa.

A disputa entre nominalismo e realismo faz o pano de fundo desses textos. Ela é uma derivação da polêmica “questão dos universais” que vem dividindo filósofos desde a Antiguidade Clássica. Grosso modo, quem acredita que os conceitos são apenas nomes que criamos para subsumir as impressões dos sentidos num conceito geral, é considerado um nominalista. Os realistas, por outro lado, são aqueles que acreditam que os universais, na forma de leis e potencialidades, existem efetivamente na realidade, determinando-a independentemente do que pensemos a respeito dela. Se o nomimalismo estiver certo, estamos condenados ao individualismo, pois cada um de nós desenvolverá suas próprias concepções sobre o mundo; mas se o realismo estiver certo, apenas a união dos esforços de todas as mentes poderá formar um conceito verdadeiro sobre a realidade. O nominalismo conduz ao solipsismo, mas o realismo abre as portas para o pragmatismo.

Essas duas grandes correntes tiveram várias ramificações, inclusive com doutrinas que procuravam uma via de meio entre os extremos que representam. Peirce, provavelmente a reboque de Kant, foi um nominalista assumido na juventude, mas mudou de opinião ao longo de sua vida e chegou à maturidade proclamando-se um realista extremado. O fato de Peirce ter abandonado o nominalismo não significa que tivesse se tornado antiidealista sob todos os aspectos. Como vimos ao citarmos seu conceito de informação, enquanto Peirce deva ser considerado um realista no campo da lógica, ele também foi um defensor do idealismo objetivo na metafísica. É por isso que alguns preferem dizer que Peirce desenvolveu um idealismo-realismo sui generis.

O artigo inaugural de Peirce – o Nova Lista – é marcadamente kantiano e nominalista. Nele, o elemento básico que condensa o conhecimento sobre o mundo é chamado de representação – uma manifestação mental que faz a ponte entre a realidade e o intelecto. Tudo começa com a síntese das impressões dos sentidos, em que a mente cria conceitos gerais por um processo de comparação. Revisando a tábua das categorias de Aristóteles e de Kant, Peirce propõe que aquelas presentes à priori na mente durante essa tarefa podem ser divididas em dois grandes grupos: Ser e Substância. Enquanto a Substância permanece incognoscível, no sentido transcendental kantiano, o Ser pode ser representado de três maneiras que refletem possíveis tipos de comparação: qualidade (quando a comparação se refere a um fundamento, ou ground), relação (quando se refere a um correlato) e representação (quando se refere a um interpretante).

Essa mesma triadicidade é aplicada em seguida à representação, dando origem ao que Peirce chama então de semelhanças, índices e símbolos. O termo representação usado no Nova Lista equivale ao que mais tarde Peirce chamaria de a relação genuína entre signo, objeto e interpretante (S-O-I). Existe, portanto, uma relação triádica indecomponível no signo: o significado não se dá na relação entre o signo e o objeto apenas, como afirmavam a maior parte das teorias dos signos anteriores, mas exige um terceiro correlato. Esse novo elemento é o interpretante, visto como o efeito produzido na mente pelo signo e, portanto, um outro signo. Nessa época, porém, Peirce ainda via a representação restrita ao pensamento – uma espécie de discurso mental internalizado, baseado apenas sobre conceitos gerais dependentes da linguagem (Short, 2004, p. 10).

Como se viu, as divisões por três também se mostram a principal característica de seu sistema filosófico-semiótico desde 1867. Aplicando-as à lógica clássica, Peirce cria sua primeira seqüência de sucessivas divisões: a representação é tricotomizada em ícone, índice e símbolo; o símbolo, por sua vez, é tripartido em termo, proposição e argumento; e o argumento, finalmente, é tripartido em hipótese, indução e dedução. Essa sequência de tricotomias que parte da representação para chegar às três figuras lógicas marca o início de uma lenta e contínua aproximação entre lógica e semiótica. É importante notar, porém, que o índice aqui ainda não é tratado como um elemento compulsivo externo ao pensamento, mas como um conceito puramente intelectual e, portanto, ainda nominalista. Somente por volta de 1885 o índice se tornará um individual puro (Short, 2004, p. 12).

Nos três artigos seguintes ao Nova Lista, destinados especificamente ao problema da cognição, Peirce eliminou a bipartição entre Ser e Substância, assumindo a tese de que não existe o objeto incognoscível apresentado por Kant em sua filosofia transcendental. O propósito central desses artigos é combater a idéia de que a cognição humana deve começar com uma dúvida, como afirmara Descartes. Para Peirce, a cognição é um processo dinâmico que não tem um ponto inicial de partida, mas acontece in media res. Nós devemos partir de nossos preconceitos, ou idéias imperfeitas e, lentamente, por meio de um processo contínuo de inferências e testes de hipóteses na realidade, tecer uma argumentação que não seja uma corrente linear, como defendeu Descartes, que não pode ser mais forte do que seu elo mais fraco, mas um cabo de fibras que podem ser cada uma delas fina e sutil, desde que sejam tão numerosas e intimamente conectadas de forma a garantir a força de todo o argumento.

Para Peirce, o “trem do pensamento” é uma concatenação de conceitos que não possui começo nem fim, mas a fusão de uns nos outros de maneira que a interpretação surja como produto desse processo. Um pensamento é um signo que representa um pensamento anterior (o seu objeto) enquanto é interpretado por um pensamento subseqüente (o seu interpretante), e assim sucessivamente ad infinitum (Short, 2004, p. 9). A semiose, a ação do signo, assume um papel fundamental na busca da pragmática da verdade, que é esperada como o resultado final do processo. Embora esta seja uma série infinita, não precisa arrastar-se para sempre porque as inferências ocorrem em instantes infinitesimais. Peirce recorre ao paradoxo da Zeno sobre a corrida entre Aquiles e a tartaruga para mostrar que a idéia de uma série infinita de interpretantes não implica uma semiose interminável, pois assim como Aquiles acabará por alcançar a tartaruga, a série infinita de inferências produzirá um resultado cognitivo determinado.

Numa resenha crítica de 1871, dedicada à reedição da obra do bispo George Berkley (um conhecido nominalista do passado, que viveu entre 1685 e 1753), Peirce dá mais um passo na direção de um realismo cada vez mais decidido, embora ainda distante do tipo que viria a assumir nas décadas seguintes. Faltava-lhe, ainda, uma noção clara do papel da segundidade como expressão de uma realidade que existe fora da mente, e não como construto mental feito a partir da síntese de signos-pensamentos. Esse será o papel assumido pelo índice em sua semiótica madura. Apesar de já ter feito a tripartição do signo em semelhanças, índices e símbolos, Peirce ainda afirma que o lógico deve considerar apenas os tipos de representação que surgem do símbolo. Aquilo que é exterior à mente não deve, portanto, interessar à lógica.

Esse resquício nominalista perdurou por toda a década de 1870 e ainda influenciou o texto inaugural do pragmatismo, “Como Tornar Nossas Idéias Claras”, publicado em 1878. Segundo Houser (2002), com esse artigo Peirce pretendia “que o pragmatismo fosse um melhoramento do método de Descartes de classificar idéias por meio do teste de sua clareza e distinção”. O pragmatismo aparece restrito a um método para tornar claros os conceitos apenas, relacionando o significado às conseqüências implicadas na sua aceitação. Seu nominalismo é explícito quando Peirce diz aos leitores que nada nos impede de afirmar que  “todos os corpos duros permanecem perfeitamente macios até que os toquemos” (EP1: p. 132), ou seja, que a idéia de solidez é algo que só existe nas nossas mentes e nada tem a ver com a realidadade das coisas.

Segunda fase: 1883 até 1896 – A descoberta da quantificação e a semiose do mundo natural

No restante da década de 1870, Peirce abandonou a disputa nominalismo-realismo e dedicou muitos esforços na promoção de seu pragmatismo nas reuniões do Clube Metafísico de Cambridge, do qual era sócio-fundador, e na construção de um sistema lógico algébrico inspirado na recém-publicada obra de Boole. A colheita de dez anos de estudos começou a aparecer em 1883, quando Peirce e o mais brilhante de seus alunos na Universidade Johns Hopkins, Oscar Mitchell, concluíram que a lógica precisava de índices para expressar a idéia de quantificação (Short, 2004, p. 12). Em outras palavras, era preciso usar seletivos tais como “algum” e “todo” para indicar o sujeito de um predicado geral. Essa descoberta foi feita independentemente de Frege, cujo trabalho permanecia desconhecido. Também nessa época, Peirce estudou a obra do matemático George Cantor sobre o contínuo (Houser, 1998, p. xxviii), que o inspirou a desenvolver uma topologia e uma teoria dos conjuntos para enfrentar a questão do contínuo.

Esses avanços produziram uma reformulação em todo seu sistema filosófico, e tiveram repercussão também na semiótica. A quantificação a partir de índices, por exemplo, faz Peirce reconhecer que o mundo exterior possui uma realidade e que a lógica precisa aprender essa lição. Num importante texto sobre a álgebra da lógica, de 1885, Peirce fez a ponte entre sua descoberta dos quantificadores lógicos e sua semiótica, afirmando que uma notação lógica completa deveria possuir signos gerais ou convencionais (símbolos), quantificadores ou seletivos da mesma espécie que os pronomes demonstrativos (índices) e signos de Semelhança. Os índices deixavam de ser coadjuvantes no processo do conhecimento e representação.

O efeito mais importante da descoberta do papel do índice foi o abandono da tese anterior de que toda cognição deve ser precedida por outra cognição, ad infinitum (o “trem do pensamento”). Como um alfinete que usamos para indicar um lugar no mapa, o índice tem a capacidade de selecionar a ocorrência de um conceito geral, que então passa a ser o sujeito de um predicado. E como o índice se conecta existencialmente com o assunto que ele denota, então também a proposição se conecta a esse assunto. Assim, uma cognição não precisa ser necessariamente encadeada a outra. Junto com o novo papel reservado aos índices, Peirce refinou a terminologia de sua semiótica. O que antes era chamado de “semelhança”, “cópia” e “imagens”, agora passará a ser chamado de ícone. E a hipótese que, como vimos, havia sido apresentada nos artigos de 1870, agora recebe o nome de abdução ou, às vezes, de retrodução.

Também nessa época, Peirce adotou a noção de degeneração, emprestada da geometria projetiva, para aplicá-la à lógica das relações. Assim, ícones, índices e símbolos passam a ser derivados dos três diferentes tipos de relação que um signo pode ter com seu objeto, de acordo com a teoria das categorias. O ícone relaciona-se de forma monádica, por semelhança, quando signo e objeto possuem a mesma propriedade, ou por exemplificação, quando o objeto é uma propriedade que o signo possui. O índice apresenta uma relação diádica com seu objeto, por possuir uma conexão real com ele. Apenas o símbolo possui uma relação genuinamente triádica e, portanto, intrinsecamente lógica, tendo um poder de representação que se dá por convenção arbitrária (CP 2.274).

Ao mesmo tempo em que estreitava o vínculo entre a semiótica e a categoriologia, Peirce alimentou, em 1887, uma polêmica contra a visão mecanicista do universo de Herbert Spencer (CP 1.33). Segundo Peirce, a causação meramente mecânica, do tipo causa-efeito não pode explicar os fenômenos de crescimento e desenvolvimento presentes no universo. Havia a necessidade, portanto, de um terceiro elemento “virtual”, no sentido de ter uma virtude que se efetivará no futuro. Em outras palavras, o universo não é mecanicista, mas teleológico e guiado por propósitos.

Essa concepção de causação final também foi o primeiro passo para a criação de uma metafísica semiótica, em que a Semiose fosse considerada a evolução teleológica de uma realidade composta por signos – visão que só se efetivaria duas décadas mais tarde, em 1907. Por volta de 1888, Peirce afirmava que havia apenas três elementos ativos no mundo: primeiro, o acaso; segundo, a lei; e terceiro, a capacidade de formar hábitos. Embora não houvesse ainda uma identificação explícita entre esses três estágios ontológicos e as tricotomias que derivam os signos, Peirce caminhava nessa direção.

Outros dois passos importantes para a síntese entre metafísica e semiótica ocorreram de 1892 a 1893, quando Peirce formulou suas doutrinas do tiquismo (a existência de acaso absoluto) e sinequismo (a existência de uma profunda ligação entre todas as coisas do universo, expressa na forma do contínuo). Em sua exposição do tiquismo, o acaso ou elemento de espontaneidade é considerado um elemento criativo de um universo concebido como mente viva. Nessa formulação de seu idealismo objetivo, Peirce afirma que a matéria nada mais é do que a mente enrijecida pelo hábito (CP 6.158).

Em meados da década de 1890 e como decorrência natural de seus estudos sobre o papel da segundidade na lógica, Peirce proclamou sua aceitação daquilo que o escolástico medieval Duns Scotus definia como haecceitas, ou o puro existente hic et nunc, sem nenhuma qualidade ou generalidade (Houser, 1992, p. xxvii). O choque de realidade traz mudanças na sua maneira de ver o pragmatismo: a realidade que deixa de ser considerada aquilo que a última opinião do processo de pesquisa efetivamente revelará para ser considerada uma esperança de acordo final que estimula a comunidade dos pesquisadores a continuar a busca. Em outras palavras, a realidade começa a assumir um modo condicional, ou aquilo que seria revelado se todos os esforços possíveis de pesquisa fossem realizados; enquanto a Segundidade pura, nas vestes do acaso absoluto, acrescenta continuamente novidades criativas que influenciam o processo evolutivo.

Em 1895 e 1896, Peirce escreveu vários esboços de capítulos para um livro de lógica que jamais foi publicado. Neles, mostrou mais uma vez as relações íntimas entre lógica e semiótica, explicitamente comparando a Semiose com o processo de raciocínio mental. Segundo Peirce, uma proposição, por exemplo, deve sempre conter ícones e índices. Além disso, a abdução ganha um destaque cada vez maior, sendo considerada o tipo de raciocínio capaz de oferecer conhecimento novo e, portanto, essencial para os desenvolvimentos da lógica e das ciências em geral. Peirce explica a abdução como uma forma de instinto baseado na afinidade de nossa mente com a natureza, enfatizando que a lógica do pragmatismo é essencialmente abdutiva e, portanto, vinculada a processos não racionais e, provavelmente, não-conscientes da mente.

Enquanto alargava o campo da semiótica, Peirce passou a distinguir dois sentidos para a lógica: um mais tradicional, restrito às formas de argumento e suas condições de verdade; e outro mais extenso, em que vislumbrava uma teoria geral dos signos que ultrapassasse os limites da lógica tradicional para penetrar na antecâmara da razão.

Terceira fase: 1896 até 1905 – Os estudos da Percepção e a classificação de 1903

A terceira fase começa quando Peirce dá mais um passo na direção do realismo lógico ao aceitar, a partir de 1896, o universo das possibilidades como presente ontologicamente no mundo (Short, 2004, p. 15). Em 1987, Peirce passa a defender um tipo de realismo que lembra o de Aristóteles, mas com ênfase especial na haecceitas de Scotus. As três categorias – possibilidade, reação e mediação – são consideradas por Peirce completas e irredutíveis, recebendo os nomes de primeiridade, segundidade e terceiridade, extraídos da matemática. Essa nova posição levou Peirce a retomar seus estudos sobre a cognição, feitos anteriormente sob forte influência kantiana, para agora apresentá-los na nova roupagem realista de sua filosofia.

No ano seguinte, em 1898, o velho amigo das reuniões filosóficas do Clube Metafísico, William James (considerado agora um dos mais proeminentes intelectuais norte-americanos), tornou público que Peirce era o criador da filosofia do pragmatismo. O alvoroço em torno de Peirce que se seguiu a este anúncio produziu nele uma dupla reação: de um lado, passou a criticar aberta e acidamente aqueles que usavam o termo pragmatismo fora de seu escopo essencialmente lógico, sem poupar nem mesmo o próprio James, acusado de manchar o pragmatismo com seu psicologismo de pouco rigor lógico. De outro lado, assumiu a missão de revisar os fundamentos do pragmatismo, oferecendo-lhe uma prova definitiva dentro do âmbito original de “método para clarear conceitos”. Peirce achava possível fazer isso a partir dos estudos em lógica e semiótica que havia realizado após a primeira formulação da máxima pragmática.

O começo da década de 1900 reacendeu em Peirce o desejo de publicar em livro suas idéias e resultados obtidos no campo da lógica, principalmente em relação à topologia e à modalidade e ao desenvolvimento da sintaxe lógica dos grafos existenciais. Ele chegou a produzir um resumo dos temas que abordaria, que hoje é considerado a melhor exposição da arquitetura das idéias de Peirce feito de sua própria lavra (CP 4.227-322). Uma vez mais, porém, sua esperança de sistematizar as contribuições que fizera ao longo dos anos passados num grande volume de lógica ficou frustrada por falta de apoio financeiro. Enquanto o processo de decisão sobre seu livro se arrastava, Peirce retomou sua teoria dos signos procurando nela a desejada prova do pragmatismo. Ao mesmo tempo, William James o convidou para duas séries de conferências a serem oferecidas em 1903: uma em Harvard, dedicada ao pragmatismo, e outra no Instituto Lowell, em Cambridge, voltada especificamente para a lógica.

O resultado desse duplo estímulo foi uma revisão dos fundamentos de seu sistema filosófico e, como decorrência, uma revisão também de sua teoria dos signos. Em 1902, ao retomar seus artigos e manuscritos dedicados à discussão da teoria da evolução e de sua relação com as leis da física, produzidos entre 1891 e 1898, Peirce conclui que o propósito que guia a evolução das espécies e das leis do universo não pode estar baseado na consciência mas que, ao contrário, é a consciência que deve ser um subproduto de uma movimento teleológico na direção de um propósito. Esta é, em resumo, a tese aristotélica da causa final, que Peirce adota como fundamento da evolução do signo, ou semiose.

Peirce concluiu que lógica e semiótica são animadas pelo mesmo princípio guia (leading principle), podendo ser tomadas como sinônimos. Tomando emprestada a divisão medieval das artes liberais em gramática, lógica e retórica, Peirce pela primeira vez anuncia sua conhecida repartição da semiótica em gramática especulativa, lógica crítica e retórica (ou metodêutica). Ainda no âmbito das conferências sobre o pragmatismo, havia a necessidade de abordar mais uma vez o problema da origem do conhecimento, que Peirce agora ataca sob o ponto de vista da percepção, aproveitando seus estudos em quantificação e no papel do índice na fundação da lógica. Começando mais uma vez em 1902, Peirce desenvolve uma teoria da percepção nova, destinada a conjugar o realismo lógico com seu falibilismo e que terá sua primeira exposição nas palestras de Harvard, em março de 1903.

Peirce afirma que as primeiras premissas lógicas brotam no contato com a realidade na forma de juízos perceptivos. Isso não significa que esses juízos sejam intuições imanentistas – o que significaria render-se à tese cartesiana tão duramente combatida nos artigos sobre a cognição. Os juízos perceptivos são hipóteses da mesma natureza das abduções e, portanto, falíveis. Não existe, portanto, qualquer possibilidade de que possamos conhecer imediatamente as relações entre as coisas, embora possamos fazer suposições sobre elas, que são aceitas cegamente até que venham a ser descartadas ou reformuladas por juízos subseqüentes. Dessa forma, Peirce dá uma resposta à questão das primeiras cognições sem recorrer ao infindável trem do pensamento nem abalar uma das colunas principais do pragmatismo: o falibilismo (Short, 2004).

Em algum momento entre as conferências de Harvard e a redação do Syllabus para as conferências do Instituto Lowell, oferecidas em outubro de 1903, Peirce teve um insight que mudou a estrutura de sua classificação dos signos. Segundo Freadman (2004), essa mudança é evidente na maneira como a relação sígnica se complica se compararmos com a que Peirce vinha usando até então: pela primeira vez, os signos são apresentados como classes compostas de três correlatos. Ou seja, aparece o que viria ser chamado no Syllabus de primeiro correlato, ou a tricotomia do signo “ele mesmo”, sem referência ao seu objeto ou interpretante.

Agora, o signo é uma relação de três correlatos. No primeiro, o signo pode ser monádico (batizado de quali-signo), um objeto ou evento singular (um sin-signo) ou um tipo de lei governando suas réplicas (legi-signo). No segundo correlato, que considera a relação do signo e seu objeto, os signos podem ser os já conhecidos ícones, índices e símbolos. No terceiro correlato, finalmente, os signos podem ser remas (o genérico para os termos lógicos), dici-signos (o genérico das proposições) e argumentos (o genérico dos silogismos ou inferências).

Seguindo uma ordem de implicação material, em que o primeiro correlato determina o terceiro por meio do segundo, Peirce chega então a dez classes de signos que ele chama de genuínos e classifica distribuindo-os numa pirâmide invertida. Além disso, Peirce discorre sobre algumas das possíveis degenerações que os tipos e classes de signos podem sofrer e sua utilidade para a lógica. Dada a audiência do Instituto Lowell, não há dúvida que o Syllabus e seus manuscritos preparatórios refletem a preocupação de Peirce em explicitar sua semiótica como um sinônimo para a lógica concebida de acordo com os princípios da matemática. Esse foco na vinculação semiótica-lógica parece ter produzido uma mudança radical na maneira como Peirce concebia as relações sígnicas. Isso está de acordo com o desenvolvimento que imprimiu à sua teoria dos signos nos anos seguintes, que já não retomam mais os termos e conceitos usados antes de 1903, mas na verdade enfatizam e desdobram os resultados de sua pesquisa naquele ano.

Ainda em 1903, outro evento importante na vida intelectual de Peirce, principalmente em relação à teoria dos signos, foi o início da correspondência com Victoria Lady Welby. Peirce havia revisado favoravelmente o livro What Is Meaning?, de Welby, abrindo as portas para um contato por correspondência que durou até 1911, um ano antes da morte de Welby. As cartas trocadas entre eles mostram as enormes transformações que Peirce deu à sua teoria na fase final de sua vida. Alguns scholars acreditam, inclusive, que Welby teve uma influência decisiva nessa fase, o que explicaria, ao menos em parte, por que Peirce dedica tantos esforços para desvendar os tipos de interpretantes presentes na semiose (Santaella, 2004). Em 1904, por exemplo, Peirce já anunciava a necessidade de tricotomizar o interpretante do signo de acordo com as categorias criando, respectivamente, os termos emocional, energético e lógico para qualificar os três estados ontológicos que o interpretante pode assumir.

Depois de fundar a origem do conhecimento na Percepção e de desenvolver uma taxonomia dos signos que naquele momento lhe parecia aceitável para lidar com os problemas da lógica, Peirce voltou sua atenção para o terceiro ramo da semiótica, o da retórica. Sua intenção era abordar mais uma vez os efeitos esperados pela ação do signo sobre o interpretante, mas agora os vendo a partir dos resultados conseguidos dos últimos anos. Em 1904, por exemplo, Peirce chega a afirmar que a representação tem o poder de causar fatos reais (EP: 300), e que os interpretantes do signo não precisam ser obrigatoriamente conceitos, como pregava sua versão ainda intelectualista da Semiose como encadeamento de pensamentos, mas também podem ser sentimentos e efeitos físicos. Dessa forma, adianta a divisão dos interpretantes em emocionais, energéticos e lógicos, que se tornará explícita em 1907.

Quarta fase: 1905 até 1914 – A multiplicação das tricotomias e a noção de interpretante ultimal

A última fase da semiótica de Peirce é a menos conhecida e compreendida. Isso se deve, em parte, ao fato de ela representar uma reviravolta na maneira de Peirce entender sua teoria dos signos, provavelmente motivada pela sua preocupação em integrar a semiótica, o pragmatismo e a cosmologia. Enquanto aparava arestas para ajustar o engate de uma disciplina na outra, fazia constantes alterações, muitas tentativamente, produzindo versões que depois eram descartadas. Seus cadernos de lógica dessa época estão cheios de rascunhos de classificações, introduções de termos novos, uma profusão de divisões triádicas e vários desenhos geométricos, principalmente triângulos, usados heuristicamente para explorar e evidenciar relações. Muitos desses rascunhos são contraditórios e, embora estejam datados, Peirce não nos autoriza a considerar os posteriores como versões necessariamente aprimoradas. Ao atingir um impasse, freqüentemente retomava classificações antigas, às vezes produzidas muitos anos antes, abandonando os resultados mais recentes.

Em 1905, Peirce demonstra já possuir sua noção realista da terceiridade, construída como um condicional futuro, ou “would be” que não pode ser reduzido a qualquer série de instâncias particulares. Ele corrige explicitamente sua opinião de 1878 sobre a dureza dos objetos e declara que cabe ao pragmaticismo insistir sobre a realidade das potencialidades gerais na natureza (Short, 2004, p. 15). A aceitação da realidade das leis da natureza, consideradas agora como hábitos análogos às crenças da mente, estimulou-o a aproximar a semiótica, já estendida para abranger os sintomas e sinais físicos, do pragmatismo, cujo kernell estava precisamente na noção de hábito de conduta.

No terceiro de uma série produzida para a revista filosófica The Monist, Peirce fez a primeira tentativa de extrair da semiótica uma prova para o pragmatismo – ou pragmaticismo, como ele eventualmente passou a chamar sua filosofia numa tentativa de dissociá-la da versão propagada por William James e seus discípulos, que Peirce acusava de subjetivista e centrada demasiadamente em resultados práticos. A verdade, porém, é que o termo pragmaticismo nunca “pegou” realmente, e o próprio Peirce voltaria a chamar sua doutrina de pragmatismo nos anos posteriores.

Para combater o nominalismo que contaminava as versões populares do pragmatismo, Peirce enfatizava que sua prova seria também uma prova do realismo, em que a verdade deveria ser considerada como aquilo que apareceria na opinião final da pesquisa feita por uma comunidade idealmente infinita e honestamente dedicada a essa busca. Note, porém, que esse summum bonum pragmático ainda é um conceito, ou seja, a verdade ainda é vista como aquilo que apareceria na forma de um símbolo sintetizado pela união de todas as mentes de uma comunidade de investigadores. Essa mente comunitária receberia o nome, em 1906, de commens, e o método pragmatista de busca da verdade ficaria a cargo do terceiro ramo da semiótica, o da retórica ou metodêutica.

No curso dessas pesquisas, Peirce descobriu que sua lógica, vista agora tal qual semiótica, poderia ser apresentada por meio da utilização de gráficos visuais – batizados por ele de grafos existenciais – capazes de realizar de forma bem mais concisa e direta a manipulação dos signos lógicos. Apesar de apresentar duas versões bastante desenvolvidas desse sistema, Peirce tampouco conseguiu completá-lo da maneira que havia desejado, provavelmente barrado por dificuldades em representar a idéia de contínuo. De qualquer forma, sua pesquisa sobre os grafos existenciais deu início a um novo ramo da lógica que nos últimos anos tem produzido resultados promissores.

Entre 1905 e 1906, Peirce também trabalhou intensamente sobre sua classificação dos signos, como ele mesmo afirma numa carta a Lady Welby. Suas pesquisas o convenceram de que uma classificação completa exigiria pelo menos dez tricotomias que, se relacionadas livremente, poderiam atingir uma cifra espantosa de 59.049 classes de signos (CP 1.291), mas que, considerando as limitações lógico-matemáticas impostas na sua geração, o total delas deveria se restringir a 66. Peirce também afirma que ter encontrado a necessidade de distinguir entre dois objetos semióticos: o imediato, presente no interior do signo, e o dinâmico, que permanece fora do signo; além de três tipos de interpretantes – aqui batizados de intencional, efetivo e comunicacional –, mas que depois seriam chamados de imediato, dinâmico e final.

Short argumenta que a introdução desses três interpretantes não substitui a tricotomização categorial, realizada em 1904, entre emocional, energético e lógico[1]. Os interpretantes imediato, dinâmico e lógico são elementos componentes do signo considerado como um sistema de relações em evolução ou, em outras palavras, como uma Classe de signo estruturado em estágios evolutivos. Já a divisão entre emocional, energético e lógico expressa o status ontológico que cada um daqueles interpretantes da Classe de signos pode assumir. Quando o signo é analisado em seus elementos e relações, a primeira divisão ocupa uma axis horizontal; a segunda, uma axis vertical. O resultado da combinação de ambas é que a interpretação de um signo dá-se sempre em três tipos de interpretantes escolhidos dentre nove possibilidades.

Não há dúvida que essa proliferação de interpretantes reflete uma crescente preocupação de Peirce com o terceiro ramo da semiótica, aquele da Retórica e da metodêutica. A metodêutica passa a ser considerada a retórica num sentido estreito (Bergman, 2000, pp. 246-247), ou a ciência que estuda os métodos a serem aplicados cientificamente, enquanto a Retórica mantém o sentido mais geral de comunicação. Deduzindo as implicações de sua cosmologia cada vez mais pampsiquista, Peirce conclui que o processo de interpretação não acontece apenas no interior de mentes humanas. Ao contrário, é a existência de uma contínua interpretação dos signos no mundo que permite explicar a emergência da nossa inteligência. O universo é composto de signos e tentar descobrir a realidade, a “coisa real” atrás do véu dos signos, é algo ilusório porque, como Peirce afirma numa carta a um amigo, em 1906:

“…esses signos são a própria coisa. Os reais são signos. Tentar descascar os signos & atingir a coisa real é como tentar descascar uma cebola e atingir a própria cebola… Se não consciência, então ciência, é o verdadeiro ser das coisas; e consciência os seus co-ser [2]…”

Como já vimos, ao aplicar essa visão de universo mental no campo da retórica, Peirce é levado a introduzir, ainda em 1906, a idéia de commens ou co-mente, um produto da comunicação ou “fusão” das mentes que trocam informação. Na verdade, a co-mente não é apenas a fusão das mentes de uma comunidade idealmente infinita. Mais genericamente ainda, ela é o pressuposto para que o signo possa transfirir a forma do objeto ao interpretante (Houser, 1998, p. xxx). Ela é a fusão entre signo, objeto e interpretante e signo (S-O-I) no momento da comunicação, quando a informação é transmitida do objeto para o interpretante por meio do signo. O objeto assume a posição de um emissor (utterer), o interpretante a de um receptor (interpreter), o signo a de um meio (medium) e a mensagem a da forma ou Idéia a ser transmitida.

Com a introdução do conceito de co-mente, Peirce estava a um pequeno passo de finalmente engatar sua semiótica de tons metafísicos ao pragmatismo. Só lhe faltava, para isso, eliminar a âncora intelectualista que ele havia colocado sobre sua filosofia ao afirmar que o interpretante de um conceito só pode ser um outro conceito. Essa barreira é finalmente quebrada em 1907, quando Peirce adota a idéia de interpretante lógico último. Peirce compreende que o interpretante lógico último não poderia ser um outro conceito porque isso produziria uma série progressiva infinita – como já explicara em seus artigos sobre a cognição da década de 1860. Para evitar a progressão ad infinitum, Peirce deu ao interpretante lógico o status de um hábito ou, quando a ocasião se faz necessária, ao efeito de mudança de um hábito produzido numa mente inteligente.

Em 1909, enquanto rascunhava um “sistema de lógica, considerado como semiótica”, Peirce afirma que o interpretante último não é a maneira como um conjunto finito de mentes efetivamente age sob a influência de um conceito, mas como qualquer mente agiria (would act) sob seu efeito – uma modalização que se harmoniza finalmente com sua idéia de Terceiridade presente na natureza, anunciada em 1906. O condicional futuro, o hábito que não se esgota em nenhuma de suas ocorrências ou, melhor ainda, a própria mudança de hábito no caminho da razoabilidade plena, passa a ser o propósito de seu pragmaticismo.

Os especialistas discondam sobre o lugar extato do interpretante último na classificação semiótica. David Savan (apud Santaella, 2004, pp 78-87) acredita que a instância ultimal é a quintessência da categoria da terceiridade aplicada apenas aos interpretantes dinâmicos – aquele que se refere propriamente aos efeitos produzidos na mente do intérprete, capazes de gerar conduta deliberada, inclusive mudança de hábitos. Os outros dois interpretantes, imediato e final, não seriam para Savan tão cruciais ao método pragmatista. Na nossa opinião, porém, cabe à semiótica, como teoria geral dos signos, considerar a instância ultimal também neles. Quando a instância ultimal se dá no interpretante imediato, temos uma interpretabilidade habitualizada; quando se dá no âmbito do interpretante final, temos o próprio signo assumindo as vestes do hábito, ou seja, transformando-se num legi-signo.

Se por um lado semiótica e pragmatismo aparecem de mãos dadas pelo conceito de hábito, por outro essa união obriga Peirce a rever a força da máxima pragmática. Isso porque o hábito não se sustenta apenas sobre considerações lógicas, mas também exije considerações éticas e estéticas. Não deve surpreender, portanto, que Peirce passe cada vez mais a colocar a ética e estética como ciências normativas responsáveis, juntamente com a lógica, por controlar a conduta humana. O método pragmatista de análise das proposições lógicas, ainda por demais assentado sobre a inferência dedutiva dos grafos existenciais, fica limitado – para não dizer diminuído – nessa nova configuração. Isso talvez explique por que, em seu último artigo, escrito em outubro de 1913 e poucos meses antes de sua morte, Peirce demonstrava insegurança sobre a validade de seu método. Seu método talvez estivesse preso demais na segurança da dedução enquanto menosprezava a criatividade (ou “uberdade”) abdutiva (EP2, p. 463 e ss).

A semiótica, porém, não sofre dessa limitação e se espraia livremente por todas as dimensões da realidade. Ao buscar na teoria dos signos uma prova definitiva do pragmaticismo, Peirce acabou levando sua semiótica ao patamar máximo da transdisciplinaridade, capaz de rivalizar com a própria matemática como a ciência dos primeiros princípios. Se o universo é feito de signos, como Peirce sustentou na fase final de suas pesquisas, então uma teoria unificada da realidade, se um dia for possível concebê-la, deverá ser necessariamente semiótica (Esposito, L2).


[1] A posição de Short não é, porém, unanimemente aceita. Veja em Liszka (1996, pp. 120-123) uma discussão sobre esse problema e visões alternativas à de Short.

[2] …these signs are the very thing. Reals are signs. To try to peel off signs & get down to the real thing is like trying to peel an onion and get down to [the] onion itself, . . . If not consciousness then sciousness, is the very being of things; and consciousness is their co-being. . . .>