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Categorias

A navalha de Peirce

Nossos primeiros passos no caminho da solução do enigma das classes de signos, ainda na antecâmara do labirinto, atravessam a fenomenologia ou, no termo inventado por Peirce, a faneroscopia. Em CP. 1.286, ele a define como:

… aquele estudo que, apoiado pela observação direta dos fânerons e generalizando suas observações, sinaliza diversas e muito amplas classes de fânerons; descreve as características de cada; mostra que embora elas estejam tão inextricavelmente misturadas que nenhuma pode ser isolada da outra, todavia é manifesto que suas naturezas são bem diferentes; então prova, além de qualquer dúvida, que uma certa lista bastante curta engloba todas essas amplas categorias de fânerons que elas consistem; e finalmente procede a difícil e trabalhosa tarefa de enumerar as principais subdivisões daquelas categorias.

Peirce começa essa tarefa levando em conta as duas listas de categorias mais influentes da história da filosofia até então: a de Aristóteles, com sua tábua de dez predicados, e a de Kant, que enumerou dose categorias básicas. Peirce notou, porém, que essas duas listas ressoam um padrão interno: elas sempre sugeriam ramificações triádicas entre seus elementos. Esse insight, relacionado provavelmente aos três estágios do pensamento de Hegel (tese, antítese e síntese), foi suficiente para que ele desenvolvesse sua lista fundamental de categorias, que no artigo Nova Lista são chamadas de qualidade, relação e representação. Na imagem abaixo, apresentamos a primeira lista de categorias de Peirce num esquema triangular que nos permite visualizar melhor as relações entre elas.

esquema_triangular

Peirce tentou outras palavras para tentar resumir o significado de suas categorias, mas mantinha-se insatisfeito porque nenhuma palavra corrente era capaz de capturar o significado dessas dategorias. Ao contrário, a escolha de termos da língua comum ou pinçados do grego ou latim apenas aumentava a confusão, pois estavam carregados de significados que pouco tinham a ver com os que ele desejava exprimir. Para evitar contaminar suas três categorias com o ranço acumulado pelos termos filosóficos, Peirce recorreu à matemática. Decidiu chamá-las de primeiridade, segundidade e terceiridade e, ao longo de sua vida, dedicou muitos esforços para provar que eram realmente universais, completas e irredutíveis (CP 8.328; 6.342-343).

As categorias e suas degenerações

A primeira formulação das categorias surgiu sob a égide de seu nominalismo juvenil. Quando Peirce iniciou seu caminho em direção ao realismo, sentiu a necessidade  de revisá-las. A revisão se efetivou em 1885, no artigo “Um, Dois, Três: categorias Fundamentais do Pensamento e da Natureza”. Nele, Peirce apresenta suas categorias não  mais sob a perspectiva da representação e da tradicional lógica do sujeito-predicado, mas do ponto de vista da lógica das relações (Murphey, 1993, p.303).  O resultado dessas pesquisas desembocou, em 1903, na terceira conferência que deu em Harvard em abril de 1903, “As categorias Continuadas”, quando Peirce introduziu conceito de degeneração das relações. Ele convenceu-se de as categorias mais complexas (segundidade e terceiridade) podiam sofrer o que chamou degeneração: uma redução de seu estado ontológico. Assim, enquanto a primeiridade não pode sofrer degeneração, a segundidade pode se degenerar em direção à primeiridade e a terceiridade pode sofrer duas degenerações, aproximando-se inicialmente de uma segundidade e, numa subseqüente degeneração, de uma primeiridade. Quando não-degeneradas, as categorias são chamadas “genuínas” (CP 5.66)

Na quarta conferência em Harvard, “Os Sete Sistemas da Metafísica”, Peirce apresentou o diagrama abaixo, mostrando as possíveis maneiras de combinar a aceitação das categorias e como cada combinação origina um sistema filosófico diferente. Nesta figura desenhada por Peirce, cada categoria é representada por um número correspondente de traços (cf. EP:180):

Das categorias aos predicamentos

Numa versão um pouco modificada do diagrama original de Peirce, é possível notar com maior clareza como as categorias e suas degenerações se posicionam em relação às demais. Criamos uma notação específica para facilitar sua visualização, usando um

apóstrofe (’) para indicar um grau de degeneração e dois apóstrofes (”) para indicar dois graus de degeneração. As três categorias fundamentais ocupam o hexágono central da figura, mas sua expansão (por meio das degenerações) intercala entre elas os estágios degenerados, como pode ser observado na figura abaixo:

new-diagram-categories

A parte mais externa corresponde, portanto, às três categorias cenopitagóricas como realmente aparecem no Fâneron. Mantendo o termo categorias para os elementos da parte interior, vamos chamar de predicamentos aqueles da parte mais exterior. Os predicamentos são, portanto, remas ou predicados que representam as categorias fundamentais para uma mente interpretante. Por mente queremos dizer não apenas mentes humanas ou mesmo vivas, mas na acepção peirceana de que todo o Universo é mente.Vamos, a seguir,  analisar rapidamente o significado de cada um desses seis predicamentos fundamentais:

(1) Primeiridade

Corresponde a tudo aquilo que é imediatamente positivo em si mesmo, sem nenhuma  relação ou necessidade de representação. São as qualidades puras (enquanto elas próprias e não enquanto representadas na mente). A primeiridade pura está presente em todas as coisas, pois é a fonte primitiva, necessariamente incorporada, em tudo o que existe ou se distribui. Ela é indefinida, fresca, original, espontânea, livre e vívida (Murphey, op. cit, p.303).

(1’) Primeiridade da segundidade

Corresponde à existência de algo em si mesmo, sentimento de alteridade que invade uma mente. Como existência pura, é mera flutuação, instabilidade e irritação. Na Cosmologia de  Peirce, esse Predicamento pode ser relacionado ao estado de puro caos, o tohu bohu ou caos primevo descrito no Gênesis bíblico, em que a existência espouca em flashes por puro acaso, sem qualquer relação ou permanência no tempo. Essa é a idéia central do Tiquismo, a doutrina que a afirma a realidade do acaso (CP 6.322).

(2) Segundidade

É qualquer experiência irracional do mundo, em que um objeto se apresenta de maneira pungente, sem considerar nossa vontade ou expectativa. É puro choque (o “outward clash”, cf. CP 8.4), um “isto” sem qualificação, pura individualidade. A segundidade pura envolve sempre resistência, reação, força bruta, compulsão, interrupção, intrusão (Murphey, op.cit, p.310). Em 1885, Peirce encontrou sua melhor definição se segundidade genuína na filosofia escolástica de Duns Scotus, que define a Haeceitas como um “aqui e agora” (hic et nunc) da experiência, um ponto ou instante isolado, pura descontinuidade.

(1”) Primeiridade da terceiridade

A primeiridade da terceiridade corresponde ao “sabor ou cor da mediação”, ou os aspectos mentalísticos primitivos que permeiam o universo (CP 1.533; CP 6.301). A primeiridade da terceiridade corresponderia ao estado de máxima entropia de um sistema. (cf. Prigogine, 1996, p. 68).  Parece corresponder, também, aos sutis laços de mediação da doutrina do Sinequismo (CP 5.4), em que elementos idealistas relacionais produzem o contínuo que permeia todo o universo. Esse contínuo, no entanto, não é o de Cantor, mas um contínuo com as propriedades que Peirce chama de kanticidade (há sempre um ponto entre dois pontos de uma série) e aristotelicidade (a totalidade da multitude está sempre contida em qualquer de suas infinitas possíveis divisões) (cf. CP 6.122;  NEM 4:343). Propomos chamar a primeiridade da terceiridade de Holicidade.

(2’) Segundidade da terceiridade

Corresponde a tudo, fato ou objeto, que ocupa uma porção do espaço e que permanece no tempo. Pode ser uma instanciação de uma lei geral, um caso, um exemplo, uma amostra, uma ocorrência (réplica) de um tipo qualquer, um particular de uma classe. É toda aplicação concreta de uma regra, uma ação que repete um hábito arraigado.

(3) Terceiridade

Abrange as idéias de representação, mediação, ordem, generalidade, lei, hábito, necessidade e inteligência. Corresponde ao tipo, à classe geral das coisas, ao que é universal. A partir de 1907, porém, a terceiridade passou a envolver o componente teleológico da Metafísica madura de Peirce (Short, 2004, p.16). Ela começou a ser entendida principalmente como hábito no condicional futuro, aquilo que “seria” (would be) caso determinadas condições se apresentassem. As leis da natureza, essencialmente probabilísticas, tornaram-se manifestações de uma tendência geral do universo a se desenvolver incorporando novos hábitos. A terceiridade torna-se, então, uma lei de probabilidade (CP 6.91), cuja expressão maior, seu interpretante último, seria uma superordem ou um super-hábito regulando a evolução do universo (CP 6.490).

Os predicamentos universais

Vamos propor aqui que as categorias e suas degenerações podem ser arranjadas numa nova tabela de propriedades ontológicas fundamentais, como faremos abaixo. Em nossa opinião, as degenerações categoriais sugeridas por Peirce não são fenômenos marginais nem refinações caprichosas de sua metafísica. Ao contrário, elas revelam o que passaremos a chamar “predicamentos universais”, que organizamos assim:

predicamentos_universaisAs flechas que vão de 1 a 2 e, em seguida, de 2 a 3, significam implicação material ou ilação de um predicado no outro (CP 2.592). É este movimento implicativo que produz a regra mais fundamental da lógica, o princípio-guia que os lógicos medievais chamaram nota notae, do latim “nota notae est nota rei ipsius” ou “o predicado de um predicado é também o predicado do objeto do primeiro predicado” (Lizska, 1996, p. 58). Peirce usou vários símbolos para expressar a relação lógica, mas o que lhe pareceu mais adequado foi “-<“, talvez porque possui um significado de desigualdade que pode ser relacionado ao tratamento numérico (1,2,3) que estava dando às suas categorias.

A flecha que vai de 1 a 2, tomada separadamente, significa envolvimento, de forma que podemos afirmar, aplicando o princípio nota notae, que:

  1. a qualidade está envolvida na espontaneidade.
  2. a espontaneidade está envolvida na individualidade.
  3. a qualidade está envolvida na individualidade.

A inversão da direção dessa flecha produz dissolução.

A flecha que vai de 2 a 3, tomada separadamente, significa abstração, de forma que podemos afirmar, novamente aplicando o princípio nota notae, que:

  1. a particularidade é uma abstração da individualidade.
  2. a generalidade é uma abstração da particularidade.
  3. a generalidade é uma abstração da individualidade.

A inversão da direção dessa flecha produz instanciação.

Os movimentos de 1 a 3 descritos pelas flechas fazem com que a semiose se desenvolva, de maneira que um estado em que há pouca variedade de coisas e propriedades se transforma continuamente num estado de muitas coisas e muitas propriedades, gerando aumento de Informação.  De fato, em 1893 Peirce afirma que:

Análogo ao aumento de informação em nós, existe um fenômeno da natureza – desenvolvimento – pelo qual uma multitude de coisas vem a ter uma multitude de características, as quais haviam estado envolvidas em poucas características de poucas coisas (CP 2.419)

Incerteza nos predicamentos

A análise do diagrama das relações entre os predicamentos universais revela que há, além da clara tendência geral ao aumento da informação, um princípio de incerteza entre pares conjugados de predicamentos, aqui expresso algebricamente pelo sinal de

multiplicação. Segundo esse princípio, num estado qualquer de informação, haverá sempre um emaranhamento entre pares de predicamentos opostos, de forma que jamais possamos destilá-los até sua pureza. A correlação se dá como esclarece a tabela abaixo:

correspondentes

As relações acima podem ser mais bem representadas na seguinte figura:

circle

Vamos explorar um pouco mais o significado desse princípio:

a) Qualidade x particularidade

A qualidade é pura intensidade e originalidade, mas essas características vão-se esmaecendo quando ela aparece replicada. Por outro lado, um Particular é uma replicação de um modelo, e variações qualitativas atrapalham sua almejada fidelidade à norma. A estratégia qualitativa é usada, por exemplo, por um artista pintor, enquanto a estratégia replicativa é usada pelo gráfico responsável por reproduzir a imagem feita pelo artista. Para o primeiro, a perda de originalidade diminui o valor de sua obra enquanto que, para o segundo, a ocorrência de originalidade nas cópias é considerada erro a ser eliminado. Desde Benjamin (1980), as relações entre qualidade e particularidade têm sido discutidas nas obras de arte submetidas a processos de replicação tecnológica, que tendem a consumir, até certo ponto, sua “aura” qualitativa e original.

b) Caos X ordem

Caos e ordem estão intimamente relacionados (Prigogine, 1996), assim como suas derivações na forma de espontaneidade x necessidade, irritação x hábito. Embora haja um movimento teleológico conduzindo a realidade ao fortalecimento da lei e à cristalização do hábito, o princípio da incerteza  afirma que, num mesmo estado de informação, caos e ordem se apresentam em matizes variados, mas sem nunca permitir que um elimine completamente o outro. Não há leis tão rígidas que não possam sofrer exceções, nem há um caos tão absoluto que não contenha em seu interior uma semente de ordem.

c) Individualidade X holicidade

Um individual só pode existir como uma fratura do contínuo, enquanto o contínuo só existe na dissolução de todo individual. Por isso, um depende do outro. Na realidade, eles co-existem de forma que todo individual tem limites idealizados e todo contínuo pode ser reunido numa entidade individual (cf. CP 4.172). O Princípio de Incerteza de Heisenberg e suas derivações do tipo partícula x onda, localidade x não-localidade, universo discreto x universo holográfico parecem nascer dessa correlação.