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Três Correlatos

A Semiótica dos Três Correlatos

A categorias e suas degenerações, aplicadas à lógica, permitiram a Peirce construir seu primeiro sistema classificatório sobre três correlatos,

impressas no Syllabus destinado à platéia das palestras que deu no Instituto Lowell, em 1903.

Entre 1902 e 1903, no período em que intensificou seus estudos sobre a percepção, Peirce entendeu que uma descrição completa do signo deveria levar em conta não só seus aspectos representativos e interpretativos, também os aspectos materiais, ou presentativos. Alguma coisa só é um signo porque é interpretada como tal por algo ou alguém. É esta dimensão presentativa que, somando-se às outras duas, formarão os três correlatos da classificação 3-tricotômica (baseada em três tricotomias):

A relação entre esses três correlatos pode ser representada com um símbolo de ilação encadeando os três correlatos: PC -< SC -< TC.

A tabela das dez classes de signos

O cruzamento das três categorias ontológicas (primeiridade, segundidade e terceiridade), com três correlatos do signo (PC, SC e TC), produz a seguinte Tabela de signos (a terminologia que adotamos é a mesma usada por Peirce em 1903):

Categorias Primeiro Correlato (S) Segundo Correlato (S-OD) Terceiro Correlato (S-OD-I)
Primeiridade (1) qualisigno ícone rema
Segundidade (2) sinsigno índice dicisigno
Terceiridade (3) legisigno símbolo argumento

A partir dessa lista dos signos genuínos (ou seja, constituídos sem degenerações ontológicas), podemos relacionar os três correlatos por meio de uma regra de implicação material que é uma decorrência natural da que discutimos quando vimos os predicamentos.

Aplicada aos correlatos, temos que o primeiro determina os demais, e o segundo determina apenas o terceiro. Ela pode ser representada com umo símbolo de ilação encadeando os três correlatos: PC -< SC -< TC

Pelo princípio do nota notae, o terceiro correlato pode ser uma qualidade em qualquer situação, pois este Predicamento está sempre presente nos três correlatos, seja na sua forma pura ou implicado na existência ou na lei. No entanto, o terceiro correlato pode ser um Existente apenas se os dois outros forem pelo menos existentes. E pode ser uma lei apenas se os dois outros forem necessariamente também leis. Restrições semelhantes devem ser feitas na relação entre Primeio e segundo correlato.

Ao aplicarmos essa para explorar as possíveis relações entre os signos genuínos, temos a formação de dez classes de signos genuínos:

PC SC TC
qualisigno ícone rema
sinsigno ícone rema
sinsigno ícone rema
sinsigno índice dicisigno
legisigno ícone rema
legisigno índice rema
legisigno índice dicisigno
legisigno símbolo rema
legisigno símbolo dicisigno
Legisigno símbolo argumento

As classes de signos genuínas podem ser arranjadas triangularmente para formar a famosa representação que Peirce fez delas no Syllabus.

As flechas que vão de 1 a 2 e de 2 a 3 cumprem a mesma função que vimos na discussão sobre os predicamentos: envolvimento e abstração quando o movimento é crescente; e instanciação e dissolução quando o movimento é inverso.

A degeneração dos tipos de signos

Da mesma maneira que fizemos ao derivar os seis predicamentos universais a partir das três categorias, vamos aplicar a notação de um apóstrofo (‘) para indicar um grau de degeneração, e dois apóstrofos (“) para indicar dupla degeneração. Dessa forma, uma segundidade genuína pode degenerar-se numa primeiridade da segundidade (1’) e uma terceiridade genuína pode degenerar-se numa segundidade da terceiridade (2’), ou numa primeiridade da terceiridade (1”).

Na tabela abaixo, apresento os signos genuínos e suas possíveis degenerações ontológicas, da maneira como as concebo.

Categorias Corretatos
Primeiro Correlato Segundo Correlato Terceiro Correlato
Primeiridade (1) qualisigno ícone rema
Primeiridade da segundidade (1’) altersigno eidosema sintaxe
Segundidade (2) sinsigno índice dicisigno
Primeiridade da terceiridade (1”) holosigno metáfora abdução
Segundidade da terceiridade (2’) réplica metonímia indução
Terceiridade (3) legisigno símbolo argumento

Alguns dos termos acima, como sintaxe, metáfora e ergosema foram criados ou discutidos por Peirce em seus artigos e manuscritos. Nesse caso, minha preocupação foi procurar respeitar o significado pretendido por Peirce, embora aproveitando-o em favor do quadro teórico que estou montando. A metonímia tem um significado já estabelecido na semiótica e na teoria da linguagem, fazendo um par com metáfora que julguei interessante e promissor para entender as relações entre semiótica e as ciências cognitivas em geral. Altersigno e holosigno são introduções minhas, que, no entanto, fiz procurando respeitar a regra de composição adotada por Peirce ao inventar qualisigno, sinsigno e legisigno, em que o prefixo denota a propriedade principal do signo.

A Tabela Periódica das 66 Classes de Signos

Se aplicarmos o princípio de implicação material entre os correlatos (1C-<2C-<3C) levando em consideração os tipos de signos genuínos e degenerados que descrevemos acima, obtemos como resultado as 66 classes de signos.

Em nosso Disco Semiótico, cruzamos a teoria das cores de Goethe com a teoria das categorias de Peirce para construir um disco móvel onde as classes de signos aparecem como consequência direta da lógica de implicação descrita acima.

Essas 66 classes de signos podem ser arranjadas numa figura triangular que preserva as mesmas relações de envolvimento e generalização presentes nas 10 classes de signos. Na verdade, o triângulo das 66 classes de signos é claramente uma expansão a partir do triângulo de 10 classes apresentado por Peirce no Syllabus. De fato, os signos genuínos aparecem distribuídos na figura triangular das 66 classes mantendo as mesmas relações que têm entre si no triângulo de 10 classes. Os 12 vazios, representados na figura por buracos escuros, aparecem devido a uma necessidade matemática: uma terceiridade pode se degerar duas vezes, uma segundidade apenas uma, e uma primeiridade não se degenera. No arranjo das 66 classes, isso produz uma distorção na figura, na medida em que cada categoria ocupa um dos vértices do triângulo.

O mesmo fenômeno pode ser observado na geometria cartesiana. Mapistas devem enfrentá-lo quando precisam representar a superfície da Terra (um objeto tridimensional), numa superfície de papel bidimensional: eles devem escolher entre distorcer a representação dos territórios nas proximidades dos pólos ou, então, deixar espaços livres como fizemos.