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Aspectos do Signo

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O leque das onze dobras

Peirce nunca declarou que relação imaginava haver entre a tipologia e classificação 3-tricotômica publicada no Syllabus, em 1903, e as tentativas posteriores baseadas em dez tricotomias. Alguns comentadores afirmam que a classificação 10-tricotômica suplantou a anterior, que então deve ser descartada como provisória. Outros sugerem que duas classificações podem ter uma relação ilativa, ou seja, a 10-tricotômica é um desenvolvimento e detalhamento da 3-tricotômica, que permanece válida como uma classificação que pode ter muita utilidade na aplicação, principalmente quando for o caso de aplicar a semiótica na análise dos fenômenos.

Nossa opinião é a de que a introdução de dez tricotomias abriu o leque dos três correlatos para mostrar sua constituição minuta, ou os caracteres essenciais constitutivos das classes de signos. De fato, a classificação com base nos três correlatos parece ser mais grosseira, enquanto a das dez tricotomias apresenta uma granulação mais fina. Talvez seja por isso que a idéia de degeneração e seus conceitos associados, como os hipoícones, hiposemas e subíndices, tratados com alguma importância até 1903, desaparecem depois de 1905, tornados desnecessários com as distinções possibilitadas pelas novas tricotomias.

A proposta de classificação dos signos que faremos a seguir baseia-se na distinção de onze caracteres essenciais, no seu ordenamento de acordo com uma regra de implicação material, na sua divisão em tricotomias conforme a faneroscopia e, finalmente, no que acreditamos seja o movimento dinâmico que anima a semiose. Nosso ponto de partida é a lista das dez tricotomias apresentadas por Peirce em seus manuscritos e, principalmente, na sua correspondência com Lady Welby (CP 8.342 e ss; EP2: 477-491)

Há muitas semelhanças entre nossa proposta e a de Peirce, mas também há diferenças importantes. Embora seja possível superpor algumas das partes de ambas, a introdução da 11a tricotomia impede que haja entre elas uma correspondência ponto a ponto. Também devemos lembrar que Peirce não explicou várias de suas tricotomias, o que torna ainda mais difícil a comparação. Optamos, portanto, por fazer uma análise das 11 tricotomias respeitando a lógica interna de nosso sistema.

A expansão das tricotomias

A partir de 1905, Peirce viu a necessidade de expandir sua semiótica para dar conta dos resultados que havia obtido nos estudos como a percepção e, também, para tentar extrair da semiótica a sua almejada prova do pragmatismo. Seus estudos o levaram a distinguir entre dois tipos de objetos: o dinâmico, que é o objeto que determina o signo e que permanece sempre fora da semiose; e o imediato, que é o objeto representado no interior do signo.

Peirce também passou a distinguir três tipos de interpretantes, chamados por ele, na maior parte das vezes, de imediato, dinâmico e final (CP 4.536). Na verdade, essa terminologia variou bastante entre 1905 e 1908, período em que dedicou particular atenção à divisão entre os interpretantes do signo, provavelmente influenciado, como vimos, pela correspondência com Lady Welby. Ao todo, portanto, a semiótica de Peirce passou a contar seis tricotomias elementares do signo, que podem ser esquematizadas assim:

1) signo (S)

2.1) objeto imediato (OI)

2.2) objeto dinâmico (OD)

3.1) interpretante imediato (II)

3.2) interpretante dinâmico (ID)

3.3) interpretante final (IF)

As dez tricotomias de Peirce

Nas cartas enviadas a Welby em 1908, Peirce trabalhava com a hipótese de que o signo podia ser analisado em dez tricotomias. Elas surgiriam a partir de dez aspectos (CP 8.344 apud Santaella, 2000, p. 93), que ele elencou desta forma:

1. de acordo com o Modo de Apreensão do próprio signo

2. de acordo com o Modo de Apresentação do objeto imediato

3. de acordo com o Modo de Ser do objeto dinâmico

4. de acordo com a Relação do signo com seu objeto dinâmico

5. de acordo com o Modo de Apresentação do interpretante imediato

6. de acordo com o Modo de Ser do interpretante dinâmico

7. de acordo com a Relação do signo com o interpretante dinâmico

8. de acordo com a Natureza do interpretante Normal

9. de acordo com a Relação do signo com o interpretante Normal

10. de acordo com a Relação Triádica do signo com seu objeto

O resultado da tricotomização desses aspectos, incluindo os nomes que Peirce sugeriu para cada uma das divisões internas das tricotomias, pode ser sistematizado na forma de uma tabela, como fez Queiroz (2004, p. 101):

1º, de acordo com o modo de apreensão do signo, ele próprio signo ele próprio S 1.qualisigno (tone, mark, potisign)

2.sinsigno (token, actisign, replica)

3.legisigno (type, famisign)

2º, de acordo com o modo de apresentação do objeto imediato objeto imediato (degenerado) OI 1.descritivo

2.denominativo (designativo)

3.distributivo (copulativo, copulante)

3º, de acordo com o modo de ser do objeto dinâmico objeto dinâmico (externo, dinâmico, dynamoid) OD 1.abstrativo (possíveis)

2.concretivo (ocorrências)

3.coletivos (coleções)

4º, de acordo com a relação do signo com seu objeto dinâmico relação do signo com o objeto dinâmico S-OD 1.ícone

2.índice

3.símbolo

5º, de acordo com o modo de apresentação do interpretante imediato interpretante imediato (felt, duplamente degenerado, destinate, emocional) II 1.hipotético (ejaculativo)

2.categórico (singular, imperativo)

3.relativo (significativo)

6º, de acordo com o modo de ser do interpretante dinâmico interpretante dinâmico (singularmente degenerado, efetivo, energético) ID 1.simpatético (congruentive)

2.percursivo

3.usual

7º, de acordo com a relação do signo com o interpretante dinâmico relação do signo com o interpretante dinâmico (maneira de apelação ao interpretante dinâmico) S-ID 1.sugestivo (ejaculatum)

2.imperativo (interrogativo)

3.indicativo (cognificativo)

8º, de acordo com a natureza do interpretante normal interpretante final (explícito, lógico, logical, normal, eventual) IF 1.gratífico

2.practical (produzir ação)

3.pragmatístico (produzir autocontrole)

9º, de acordo com a relação do signo com o interpretante Normal ralação do signo como interpretante normal (natureza da influência do signo) S-IF 1.rema (sema, termo, sumisigno)

2.signo dicente (fema, proposição)

3.argumento (deloma, suadisign)

10º, de acordo com a relação triádica do signo com o objeto dinâmico para o interpretante Normal relação triádica do signo com o objeto dinâmico para o interpretante final (natureza da garantia da declaração, relação do interpretante lógico ou final com o objeto) S-OD-IG (sic) 1.instintivo (garantia por [de] instinto)

2.experiencial (garantia por [de] experiência)

3.habitual (garantia por [de] forma)

A análise do fâneron

O fâneron é a “totalidade” presente numa mente qualquer num dado instante qualquer. É um signo Perfeito, dinâmico, constituído pela relação triádica S-OD-IF. O primeiro trabalho do semioticista, portanto, é o de  “quebrar” essas relações, à maneira que um químico faz com uma substância, para atingir seus elementos e relações constitutivas.Ao aplicarmos as ferramentas analíticas dadas pela fenomenologia, produzimos uma análise das relações que parte da única genuinamente triádicas em direção aos níveis mais degenerados até atingirmos os elementos constitutivos do signo. À representação dessa análise chamaremos de cascata analítica do fâneron:

fâneron

Na figura acima, podemos divisar onze tricotomias, e não dez como Peirce insistiu durante toda a fase madura de suas pesquisas. A nova tricotomia é a da relação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico (S-OD-ID) e a questão que naturalmente surge é sobre seu impacto no arranjo das classes de signos e como ela pode nos ajudar a compreender melhor a semiótica, talvez solucionando alguns dos problemas com os quais os semioticistas têm se debatido, como uma diferenciação clara entre Asserção e proposição.

Níveis do fâneron

A cascata também nos trás outras informações interessantes, como a presença de quatro níveis ou degraus constitutivos.

Fundamentação (OI, II)

Presentação (S, OD, ID, IF)

Representação (S-OD, S-ID, S-IF)

Comunicação (S-OD-ID, S-OD-IF)

A inesgotabilidade da informação

A diferença entre as flechas contínuas e tracejadas na Cascata Analítica do Fâneron representa uma propriedade fundamental da informação: ela é um condicional futuro cuja força não se esgota nas suas instanciações. Portanto, é importante notar que:

b) As flechas de linhas contínuas representam uma análise da tricotomia em seus níveis mais simples, ou as sucessivas descidas na hierarquia das relações.

c) As flechas de linhas tracejadas representam a presença do continuum, ou da causa final à sua aplicação contingencial.

A presença das linhas tracejadas em cada nível significa que:

c.1) nenhuma multitude finita de interpretantes imediatos (II) pode esgotar a informação Fundamental do signo (S).

c.2) nenhuma multitude finita de efeitos interpretativos (ID) pode esgotar a informação presentativa do interpretante final (IF).

c.3) nenhuma multitude finita de representações efetivadas do signo (S-ID) pode esgotar a informação representativa expressas na relação entre signo e seu interpretante final ( S-IF).

c.4) nenhuma multitude finita de atos comunicativos, ou ilocuções  (S-OD-ID), pode esgotar toda informação comunicativa de uma proposição, Indução ou Argumento (S-OD-IF).

Eixos da semiose

A Cascata Analítica também nos permite divisar os três grandes eixos da semiose:

Objetivação (Ob)

OI ——–OD——–S-OD———S-OD-ID——— S-OD-IF

Interpretação (In)

II———-ID———–S-ID———-S-OD-ID

Significação (Si)

S ———-IF————S-IF———–S-OD-IF

Descrição das novas tricotomias

Já descrevemos as tricotomias de Fundamentação (OI e II), responsáveis pelo ground e significância, e as Presentativas (S, OD, ID e IF), responsáveis por definir a materialidade do signo “em si mesmo”. Vamos agora descrever as tricotomias Representativas e Comunicativas, formadas por relações diádicas e triádicas estabelecidas entre as tricotomias não-relacionais.

O signo tem a capacidade de relacionar com cada um demais elementos que compõem as classes de signos, com exceção do objeto imediato e do interpretante imediato que lhe são internos. Peirce afirma que, na composição dessas relações, deve-se levar em conta apenas aquelas em que o signo é um membro da relação, excluindo, por exemplo, relações do tipo OD-ID, OD-IF ou ID-IF.

Tricotomias Representativas

São as tricotomias que produzem a propriedade representativa do signo: a maneira como ele se relaciona como seu objeto dinâmico, como essa representação é efetivamente interpretada pelo interpretante dinâmico e o como essa representação projeta-se em direção a um ideal representativo expresso na relação entre signo e interpretante final.

Relação do signo com o objeto dinâmico (S-OD)

Relação do signo com o interpretante dinâmico (S-ID)

Relação do signo como interpretante final (S-IF)

Tricotomias Comunicativas

As tricotomias comunicativas mostram como objeto, signo e interpretante fundem-se numa relação triádica genuína, gerando informação e entendimento  e permitindo o autocontrole do próprio processo de semiose.

Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico (S-OD-ID)

Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante final (S-OD-IF)

A regra do triângulo da existência

A tricotomização dos 11 elementos do signo leva à produção de 78 classes. No entanto, nem todas são logicamente possíveis. Doze delas são aberrações lógicas porque não respeitam o que chamaremos de regra dos triângulos de existência. Essa regra é necessária para preservar a realidade da segundidade na semiótica. Se o signo for um existente, por exemplo, deve estar conectado materialmente ao objeto imediato ou ao objeto dinâmico. Não se pode ter uma impressão digital, por exemplo, sem que ela esteja conectada materialmente a um dedo existente, nem se pode satisfazer o desejo de comer bolo sem que exista realmente um bolo sendo comido (ou, pelo menos, uma alucinação que garanta uma experiência ficcional de um bolo sendo comido).

A regra dos triângulos de existência tem duas partes:

1) determina que não pode haver segundidade no eixo da significação sem que haja também em cada um demais eixos. Isso vale para ocorrências de segundidade em todos os elementos do eixo da significação: S, IF, S-IF e S-OD-IF.

2) estabelece que deve haver um número de triângulos de existência sempre igual ao número de segundidades manifestas no eixo da significação. Portanto:

a) Se no eixo da significação houver existentes em dois períodos, então deverá haver, correspondentemente, dois triângulos de existência ligando os três eixos.

b) No caso de S, IF e S-IF serem existentes, então deverá haver, correspondentemente, três triângulos existentes unindo os eixos.

Há, ainda, outra observação importante ser feita: a tricotomia S-OD-ID participa tanto do eixo da Objetivação quanto do da Interpretação, de sorte que basta que S-OD-ID seja existente para garantir condições de existência para os dois eixos. Igualmente, a tricotomia S-OD-IF participa dos três eixos, de sorte que a ocorrência de um existente nessa tricotomia automaticamente produz um triângulo de existência sobre o fluxo da semiose.