Semiose

O Solenóide da Semiose

Os 11 aspectos do signo distribuídos ao longo dos três eixos da Cascata do Fâneron são ordenados pelo fluxo da informação. A figura abaixo mostra a semiose como um processo dinâmico organizado em hierarquias. Tal fluxo de informação não precisa de componentes estruturais como “energia”, “matéria” ou um “canal”.

solenoide

Propriedades gerais da semiose

Semiose e sistemas dinâmicos

A semiose comporta-se como um sistema dinâmico construído a partir da interação recursiva entre as tricotomias dos eixos de objeto, signo e interpretante. Os três correlatos do signo podem ser considerados os elementos em interação, cada qual com seus atributos e produzindo relações que dão coesão ao sistema como um todo. O grande sistema da semiose pode ser dividido em subsistemas menores. Esse encadeamento de sistemas e subsistemas cria hierarquias dinâmicas (Collier, 1999. p. 111 e 2003, p. 109).

Semiose e periodicidade

A semiose apresenta como um fluxo periódico. Por periodicidade queremos dizer o fenômeno da repetição de um conjunto de propriedades a intervalos regulares (Scerri, 1998), embora haja aumento de complexidade no todo. Os períodos parecem estar acoplados de forma produzir o que os teóricos dos sistemas chamam de ressonância – uma relação harmônica entre freqüências (dadas pela indução) que se mostram irreversíveis e construtivas, capazes de fazer emergir no sistema novas propriedades.

Semiose e autopoiesis

A semiose é autopoiética (Maturana e Varela, 1973, p. 78), ou seja, ela se produz a si mesma a partir de uma complementaridade fundamental entre estrutura e função. Talvez seja essa a propriedade do signo perfeito, que lhe permite apresentar-se como enteléquia.

Semiose e desenvolvimento

A semiose é ampliativa, partindo do simples em direção ao variado e complexo, ou seja, ela caminha no sentido do aumento da informação.

Períodos da semiose

A semiose tem três períodos completos e um subperíodo aninhado dentro do terceiro. Um período semiósico se inicia com a primeiridade numa tricotomia do eixo da significação e se completa com uma terceiridade na tricotomia desse mesmo eixo, mas num nível acima. Em outras palavras, a presença de terceiridade no eixo da significação sempre marca o fim de um período e início do seguinte.

Há uma boa razão para isso: a criação de um hábito no eixo da significação faz com que todo o período em questão adquira uma certa rigidez, uma certa opacidade. Os períodos transformados em hábitos saem do primeiro plano, onde o dinamismo acontece, para planos inferiores e não imediatamente ativos. Esse é o mecanismo que, por exemplo, envia para o código genético as características selecionadas no processo de evolução biológica, ou que envia para as estruturas inconscientes da mente os hábitos adquiridos pela iteração das experiências (Bateson, 1999). O hábito é o resultado de um processo inferencial de generalização e fixação de hábitos. Veja, por exemplo, o que Peirce diz sobre isso:

(…) o processo da formação do hábito é um afundamento de conhecimento para níveis menos conscientes e mais arcaicos. O inconsciente contém não só os assuntos dolorosos que a consciência prefere não inspecionar, mas também muitos assuntos que são tão familiares que nós não precisamos inspecioná-los. Hábito, portanto, é uma enorme economia do pensamento consciente. Podemos fazer coisas sem conscientemente pensar sobre elas”  (Idem, pp. 141-142).

A mesma idéia é reforçada no trecho abaixo:

“(…) na evolução mental há (…) uma economia da flexibilidade. Idéias que sobrevivem a usos repetidos são tratadas de uma forma especial que é diferente da forma na qual a mente trata novas idéias. O fenômeno da formação do hábito classifica as idéias que sobrevivem a usos repetidos e as coloca numa categoria mais ou menos separada. Essas idéias confiáveis então se tornam disponíveis para uso imediato sem inspeção cuidadosa, enquanto as partes mais flexíveis da mente podem ser guardadas para novos usos ou assuntos”  (Idem, p. 509).

As fases da Inquirição

Cada um dos períodos da semiose podem ser relacionados aos quatro níveis do pensamento (cf. Santaella, 2004, p. 81):

Perceptivo
Inquisitivo
Deliberativo
Científico

Um exemplo: o bebê está chorando

Vamos a um exemplo concreto. O primeiro signo que enviamos ao mundo ao nascermos é, quase sempre, um choro. O ato de chorar é um signo repleto de significado. Foi selecionado na evolução de nossa espécie por uma razão importante: ajudar na comunicação entre pais e bebê no longo período de imaturidade que se segue ao nascimento da criança. O ser humano é o primata que leva mais tempo para atingir a maturidade adulta. Por um longo e delicado período, quando a vida do bebê está nas mãos dos pais, comportamentos como o choro e o riso são signos importantes para que o bebê comunique aos pais seu desconforto ou satisfação (Morris, 2003). O choro é um signo que possui, portanto, uma interpretabilidade fundamentada definida no nível da espécie humana.

Fundamentação e presentação

Emprestando a terminologia da Teoria dos Atos da Fala de Austin (apud Marcondes, 2005), o choro é um ato performativo do bebê, ainda que ele não o realize com uma intencionalidade consciente. Sua dimensão locucionária nasce da habituação adquirida na própria evolução de nossa espécie, em que certos comportamentos são gramaticalizados para poder significar. Sua força ilocucionária é óbvia para a mãe da criança, que compreende imediatamente que seu filho está sentindo desconforto e precisa de ajuda. As forças locucionárias e ilocucionárias existem porque o ato de chorar realizado por um bebê recebeu, no processo evolutivo de nossa espécie, um objeto imediato e um interpretante imediato habituais (ground e interpretabilidade fundamentada), que criam no seu entorno uma “aura” de significância.

Essa interpretabilidade fundamentada, por sua vez, confere ao signo-choro a potencialidade de produzir Intepretantes dinâmicos na mente da mãe da criança (embora o desenvolvimento cultural tenha transferido essa interpretabilidade para outras pessoas próximas, como a avó ou a babá). De fato, se a mãe vê seu filho chorar, o “instinto” (ou hábito de interpretação dinâmica) materno a faz especular sobre o motivo do desconforto de seu filho e em maneiras de aliviar seu sofrimento.

Semioticamente, portanto, o choro é um signo, a razão ou causa eficiente do choro (fome? dor?) é seu objeto dinâmico, as conjecturas criadas na mente da mãe na medida em que ela procura representar o objeto dinâmico são os objetos imediatos do signo-choro e as atitudes que ela tomar para interpretar corretamente esse signo são seus interpretantes dinâmicos. O interpretante final do signo é a atitude que a mãe deverá tomar para fazer com seu bebê deixe de sentir o desconforto e que ela deixe de sentir aflição.

O bebê só vai parar de chorar quando o objeto imediato produzido na mente da mãe se conformar com o objeto dinâmico.  Numa primeira tentativa, a mãe dá o peito pensando que ele sente fome, mas o bebê ainda chora. O ato de dar o peito é um interpretante dinâmico que atualiza um possível interpretante imediato. Afinal, faz parte da interpretabilidade do signo “choro”, selecionada evolutivamente, que a criança possa estar com fome. A mãe então verifica a frauda (um outro interpretante dinâmico que atualiza uma outra possibilidade), mas o bebê ainda chora. Noutra tentativa ainda, massageia a barriga da criança, que finalmente pára de chorar.

O choro era provocado por gases. No momento em que o objeto imediato produzido pela mãe (expresso na conjectura “talvez sejam gases”) conformou-se ao objeto dinâmico real do signo “choro” (a dor real causada na criança pelos gases), gerando um interpretante dinâmico energético (a massagem na barriguinha) que, por sua vez, criou um interpretante final emocional: o retorno do bebê e da mãe a um estado original de comunhão tranqüila e feliz – que é, segundo a psicanálise freudiana tradicional, o interpretante final perseguido por todos nós.

Ora, o bebê certamente adorou o carinho de sua mãe em sua barriga, que não só aliviou sua dor devido aos gases como também lhe deu uma informação suplementar: a de que a massagem da mamãe lhe dá prazer. Isso é uma observação ou experiência colateral: o bebê aprendeu algo a mais sobre o mundo. Como já discutimos, essa familiarização deve ser originada na percepção, já que esta é, como já vimos, a única porta de entrada de todo conhecimento novo nas nossas mentes. O papel da experiência colateral é, portanto, o de transformar objetos imediatos de primeiridade e segundidade (os perceptos), em objetos imediatos de terceiridade (percipuua e grounds), criando o fundamento necessário para que o signo possa representar cada vez melhor. É esse mesmo processo que cria os umwelten das espécies, as “bolhas” de signos que as envolve (Uexkull, 1992) à medida que evoluem na relação com o meio ambiente.

De fato, se situações semelhantes ao do choro provocado por gases se repetirem no futuro (e é quase certo que elas se repetirão várias vezes ao dia), não devemos nos admirar se o bebê começar a relacionar o seu ato de chorar com a recompensa do carinho de sua mãe. Graças à sua inteligência inata, o bebê possui a capacidade de relacionar um fato concreto da realidade (o seu ato de chorar) a uma expectativa futura (o hábito de a mãe lhe massagear a barriga quando ele chorar). Essa relação é, como vimos uma cognição que traz informação para o interior da mente (CP 1.537), aumentando o conhecimento que o bebê tem do mundo.

Por meio da experiência colateral, o bebê terá aprendido a fazer “manha”, que é um comportamento perlocucionário bastante sofisticado, baseado numa intencionalidade capaz de prever experiências futuras baseadas em experiências presentes. Austin define um ato perlocucionário como se caracterizando “pelas conseqüências do ato em relação aos sentimentos, pensamentos e ações da audiência, ou do falante, ou de outras pessoas, e pode ter sido realizado com o objetivo, intenção e propósito de gerar essas conseqüências” (apud Marcondes, op. cit, p. 19). Vê-se, portanto, que todo ato perlocucionário exige a presença de informação da maneira como Peirce a definiu condicionando sua realização. De fato, a informação peirceana é sempre condicional. Vê-se, também, que não é preciso saber falar para realizar um Ato da Fala. Bebês – e até os animais – fazem isso.

Interessa-nos particularmente, na continuação desse exemplo, que a manha do bebê tem início quando o interpretante final do signo-choro não é mais um estado emocional de interrupção do desconforto efetivamente sentido. Agora, o bebê aplica o signo-choro intencionalmente, ele não é mais um Sin-signo, mas uma réplica destinada a produzir um interpretante final energético (o carinho da mãe, que é uma ação efetiva). O bebê fará isso algumas vezes antes que o interpretante final se transforme num hábito: a mãe tenderá a inverter a ordem de suas ações de interpretação dinâmica (dar o peito, verificar a frauda etc.) e passará a fazer primeiro a massagem na barriguinha do bebê. Nesse ponto, o interpretante final terá se transformado num hábito, numa conduta rotineira da mãe, e o signo-choro terá se transformado, para esta relação mãe-bebê, num legi-signo: um signo convencional ou habitual, que existe para ser usado, aplicado. A manha é sua aplicação.

Representação

Sabemos que o objeto do signo-choro-manha é a expectativa do carinho da mamãe – é isso que ele professa representar. O sucesso dessa representação depende de cada situação específica em que é usado, ou seja, do caminho da relação S-OD para S-IF. Na primeira vez que fizer sua manha, é possível que não consiga sucesso na comunicação dessa informação. Mas também aqui a repetição da situação tenderá a fazer, no longo prazo, com que a mãe o compreenda por um processo de experiência colateral.

A mãe começa a “sacar” as verdadeiras intenções do bebê por meio de implicaturas comunicativas (cf. Grice), ou abduções que criam hipóteses falíveis e corrigíveis sobre as intenções do bebê. Se ela entrar no jogo de seu filho e lhe conceder o carinho na barriga sempre que ele chorar manhosamente, vai “estragá-lo” (como se diz popularmente), ou seja: vai ser cúmplice na produção de um hábito de representação, em que a relação entre signo e objeto dinâmico (S-OD) se torna habitual.

Cada vez que a mãe cede à manha de seu filho, produz um interpretante dinâmico representativo energético (S-ID). Se ela o fizer sempre, esse efeito também se tornará habitual e podemos esperar que, em poucos dias de manha, a mãe já esteja entendendo (e atendendo) os anseios de seu bebê de forma “condicionada”, sem que precise refletir conscientemente. Ou seja, a relação (S-IF), o efeito representativo, também se transformará em hábito e, conforme o bebê terá suas expectativas satisfeitas com a mesma freqüência, o objeto dinâmico do signo terá se conformado perfeitamente com a sua representação destinada (S-IF).

O signo-choro-manha assume, então, o estatuto de um símbolo que representa convencionalmente, para o sistema mãe-bebê, a mensagem “quero carinho na minha barriga”. É por isso que as mães dizem entender a linguagem de seus bebês e sentem angústia ao ter que o deixar com estranhos que não conhecem os gestos, gemidos e expressões que foram simbolizados no contato reiterativo entre os dois.

Quando o signo-choro-manha assume as vestes de um Símbolo, temos uma situação plenamente comunicativa, composta de (1) signos simbólicos (a gama de vocalizações, tonalidades, gestualidades que compõem o signo-choro-manha, compartilhados por mãe e filho e que cumpre a função de oferecer uma interpretabilidade fundamentada), (2) um emissor (o sistema ou quase-mente “bebê-com-vontade-de-carinho”, que cumpre o papel de objeto dinâmico) e (3) um receptor (o sistema ou quase-mente “mamãe-querendo-satisfazer-seu-filho”, que cumpre o papel de interpretante).

Comunicação

O signo-choro-manha é o veículo que transfere do bebê para a mãe o significado expresso numa forma, que é o objeto imediato geral e interpretante imediato também gerais (abduções). Na verdade, se tomarmos ao pé da letra, toda comunicação humana, interpessoal ou de massa, dá-se da mesma maneira: a transmissão de formas por meio de signos.

A felicidade da comunicação, ou sucesso da semiose, ocorrerá quando signo, objeto e interpretante se acoplarem num supra-sistema capaz de realizar plenamente a significação possível que reside, como sempre, na interpretabilidade fundamentada do signo, ou seja, no objeto imediato e interpretante imediato que ele carrega consigo, ou sua carga de significância, sua informação possível esperando ser atualizada numa ilocução comunicativa efetiva (S-OD-ID) na esperança de conseguir o efeito comunicativo final (S-OD-IF): num determinado momento e contexto, o bebê faz a manha, a mãe compreende sua mensagem e atende seus desejos sabendo que há nesse ato uma cumplicidade entre os dois, uma comunhão simbólica que os une na comunicação.

Fica claro, portanto, que a tricotomia S-OD-ID produz repetição ou redundância para que a informação possa ser transmitida. A iteração comunicativa dá origem a uma freqüência capaz de produzir um efeito final pretendido: um “condicionamento”.

Tricotomias Comunicativas

As tricotomias comunicativas mostram como objeto, signo e interpretante fundem-se numa relação triádica genuína, gerando informação e entendimento  e permitindo o autocontrole do próprio processo de semiose.

(S-OD-ID): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico
(S-OD-IF): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante final

A regra do triângulo da existência

A tricotomização dos 11 elementos do signo leva à produção de 78 classes. No entanto, nem todas são logicamente possíveis. Doze delas são aberrações lógicas porque não respeitam o que chamaremos de regra dos triângulos de existência. Essa regra é necessária para preservar a realidade da segundidade na semiótica. Se o signo for um existente, por exemplo, deve estar conectado materialmente ao objeto imediato ou ao objeto dinâmico. Não se pode ter uma impressão digital, por exemplo, sem que ela esteja conectada materialmente a um dedo existente, nem se pode satisfazer o desejo de comer bolo sem que exista realmente um bolo sendo comido (ou, pelo menos, uma alucinação que garanta uma experiência ficcional de um bolo sendo comido).

A regra dos triângulos de existência tem duas partes:

1) determina que não pode haver segundidade no eixo da significação sem que haja também em cada um demais eixos. Isso vale para ocorrências de segundidade em todos os elementos do eixo da significação: S, IF, S-IF e S-OD-IF.

2) estabelece que deve haver um número de triângulos de existência sempre igual ao número de segundidades manifestas no eixo da significação. Portanto:

a) Se no eixo da significação houver existentes em dois períodos, então deverá haver, correspondentemente, dois triângulos de existência ligando os três eixos.
b) No caso de S, IF e S-IF serem existentes, então deverá haver, correspondentemente, três triângulos existentes unindo os eixos.

Há, ainda, outra observação importante ser feita: a tricotomia S-OD-ID participa tanto do eixo da Objetivação quanto do da Interpretação, de sorte que basta que S-OD-ID seja existente para garantir condições de existência para os dois eixos. Igualmente, a tricotomia S-OD-IF participa dos três eixos, de sorte que a ocorrência de um existente nessa tricotomia automaticamente produz um triângulo de existência sobre o fluxo da semiose.

A Tabela Periódica das Classes de Signos

As 66 classes de signos podem ser arranjadas numa tabela triangular tendo como vértices as categorias cenopitagóricas (primeiridade, segundidade e terceiridade). As janelas pretas ou “buracos” correspondem às classes eliminadas pela regra do triângulo de existência. As flechas correspondem à relação lógica de ilação ou implicação material.
As flechas que vão de 1 a 2, que sabemos indicar envolvimento, aqui também correspondem aos estágios da semiose: Fundamentação, Presentação, Representação e comunicação. Isso significa que a Presentação envolve Fundamentação, que a Representação envolve os dois primeiros e que a comunicação envolve todos os demais.
As flechas que vão de 2 a 3, que sabemos indicar universalização, aqui também correspondem aos quatro períodos ou estágios do conhecimento: Perceptivo, Inquisitivo, Deliberativo e Científico. Isso significa que todo conhecimento começa na percepção, que a deliberação exige ambas percepção e inquisição e que o método científico é uma universalização dos anteriores.