Percepção
Percepção: um limiar semiótico?
A teoria da percepção, que Peirce desenvolveu principalmente entre 1902 e 1906 mostra-se importante ao nosso estudo das classes de signos por duas razões. A primeira e mais evidente é a clara afinidade que existe entre percepção e semiose, de sorte que uma compreensão do processo perceptivo pode iluminar muitas questões obscuras sobre a semiose do signo propriamente dito. Ambos os processos estão assentados sobre inferências lógicas e podem ser analisadas a partir de alguns elementos em comum, como objeto imediato, objeto dinâmico, interpretante imediato e abdução. É por isso que, segundo Eco (1997, p.110) “torna-se embaraçoso diferenciar percepção de significação”.
A segunda razão para nos determos na teoria da percepção antes de nos aprofundarmos nas minúcias da ação do signo é que ela foi elaborada na mesma época em que Peirce ampliava o número das tricotomias do signo para três (1902-3) e, em seguida, dez (1905). Certamente não há coincidência nisso. Até o início da década de 1900, ele via a faneroscopia e a semiótica como ciências distintas, cada qual ocupando um lugar em sua classificação das ciências. A partir de 1906, porém, Peirce parece ter concluído que não há um corte seco separando semiose e fenômeno e sua pesquisa com os signos assumiu tonalidades cada vez mais fenomenológicas (Savan apud Liszka, 1996, p.126). Parece legítimo conjecturar que os resultados de sua pesquisa com a percepção tenham feito com que os limites entre fenomenologia e semiótica fossem se diluindo até praticamente desaparecerem. Como afirma Santaella (1998, p. 51) “a percepção tem uma natureza híbrida entre a fenomenologia e a semiótica. Pode-se dizer que ela ocupa o ponto exato em que esses dois reinos se cruzam”.
Para os comentadores peirceanos, então, o desafio passou a ser encontrar a correta correspondência entre os termos da teoria perceptiva e aqueles usuais na teoria do signo, de forma que uma se acomode naturalmente na outra.
Em nossa Tabela Periódica, a percepção corresponde à primeira fase da inquirição. Para nós, o percepto é, simplesmente, todo signo cujo objeto imediato é uma primeiridade ou uma segundidade. Por outro lado, todo signo cujo aspecto do objeto imediato é uma terceiridade é um percipuum, ou envolve um percipuum.
Por essa simples regra, toda distinção entre percepção e significação desaparece.