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Informação / Comunicação

A terceira folha do trevo

O estudo das propriedades formais dos signos é o papel do primeiro ramo da semiótica, que Peirce chamou de gramática especulativa. O segundo ramo é o da lógica Crítica, ou o estudo das condições que permitem ao signo representar verdadeiramente. O terceiro ramo, finalmente, é o da comunicação, que Peirce também chama de retórica ou metodêutica – o estudo da transferência de informação e dos métodos de pesquisa que nos servem na busca pela Verdade. Peirce afirmou que o ramo da comunicação era o mais importante dos três, pois levaria às mais importantes descobertas filosóficas. No entanto, a maior de sua pesquisa em semiótica foi dedicada à gramática especulativa: uma busca intensa, quase obsessiva, pela correta definição de signo e a classificação de seus tipos possíveis que durou quatro décadas.

A razão para isto é simples: a gramática, por ser mais fundamental e universal, é necessariamente o ramo que suprirá, à lógica e à retórica, aqueles fundamentos que lhes permitirão atingir pleno desenvolvimento. Não é possível avançar a compreensão da comunicação sem, antes, resolvermos alguns dos problemas que cercam a definição e a classificação dos signos. Peirce sentiu isso profundamente. Seu sistema lógico mais importante, baseado em diagramas (os grafos existenciais), permaneceu incompleto, para sua enorme frustração, em grande parte porque alguns de seus aspectos dependiam da compreensão de como o signo evolui ao representar seu objeto. A comunicação, por sua vez, depende da lógica e da gramática e não há meios de ela se desenvolver independentemente de suas correlatas.

É por isto que este trabalho dedica-se à gramática especulativa na esperança de que, ao clarearmos algumas questões obscuras sobre o funcionamento dos signos, uma teoria da comunicação possa ser construída com bases mais sólidas do que as que temos hoje.

A definição mais geral possível diz que a comunicação é a transmissão de informação, sem que precisemos nos preocupar com o que é a informação, por onde passa e como se dá sua transmissão. Basta que um estado de coisas se altere, seja na realidade do mundo externo a nós, ou no interior de nossas mentes, para que constatemos a ocorrência de comunicação.

Se a informação flui por toda parte, como têm demonstrado a física e a biologia, devemos considerar a comunicação como um componente ontológico da realidade. Essa é a vanguarda da pesquisa em comunicação e semiótica, cujas possibilidades teóricas têm atraído pesquisadores de várias áreas científicas.

A comunicação não é a mesma em todo canto, porém. É preciso estabelecer gradiente comunicacional que parta da transmissão de informação no nível da matéria, fortemente constrangida pelas leis da Física, para a atingir as formas de comunicação mais livres e criativas, como a que ocorre entre seres inteligentes e dotados de consciência. Nöth afirma não ser possível postular uma fronteira nítida entre fenômenos comunicativos e não-comunicativos na natureza, mas deve-se conceber uma transição gradual que vai dos modos de interação proto-comunicativas mais rudimentares em direção aos mais complexos. (apud Santaella, 2001, p.17).

Seguindo a divisão de categorias de Peirce, é possível afirmar que existe uma qualidade de comunicação que perpassa todo o universo. Pode ocorrer de tal qualidade de comunicação transformar-se em existência local, permitindo a transmissão de informação. E esta única transmissão pode vir a se constituir como meio para um fluxo de sentido.

Consideraramos a comunicação, portanto, como um produto da intencionalidade, ou “mentalidade”, que brota desde os níveis mais elementares da natureza até atingir sua forma mais elaborada na autoconsciência humana (Short, 2004, p. 14). Adotamos nesse trabalho a “grande visão” da semiótica peirceana, que tem sido defendida por Deely (1994). Essa concepção da semiótica é capaz de abarcar inclusive os processos físicos da natureza, considerados como resultado da ação dos signos, ou semiose.

É a partir desse ponto de vista que defendemos que semiótica e comunicação podem ser unidas numa mesma ciência. A razão disso é que a ação dos signos, ou semiose, corresponde precisamente à definição essencial de comunicação acima: onde houver semiose, haverá uma alteração no estado de coisas, o que é um sinônimo de fluxo de informação.

Essa concepção ampla da comunicação, baseada numa semiótica holística, costuma eriçar os pêlos dos teóricos que insistem numa visão logocêntrica da área, para não dizer midiacêntrica. Para eles, a ciência da comunicação deve restringir-se à cultura humana (Eco, 1977); restringem ainda mais o campo para concentrar apenas nos meios de comunicação de Massa. Essa restrição é, na minha opinião, uma forma de perversão intelectual, pois transforma o acidente em norma. A comunicação não nasce com o tambor, com o livro, com o telégrafo, jornal, televisão ou qualquer outra tecnologia. Ao contrário, essas tecnologias são criadas para ampliar, melhorar, tornar mais eficiente um processo de comunicação no qual estamos imersos e do qual depende a sobrevivência de todo sistema organizado, seja ele um indivíduo ou uma sociedade complexa.

Essa era certamente a opinião de Peirce na última fase de sua produção intelectual. Em 1903, ele afirmou que o universo inteiro é um signo semelhante a uma pintura impressionista (CP 5.119). Em 1905, escreveu que “um signo se conforma  perfeitamente com a definição de um medium de comunicação” (MS 283). Já em 1911, definiu o signo usando o jornal como exemplo: “se uma pessoa lê um item de notícia num jornal, seu primeiro efeito será provavelmente o de causar nessa mente o que pode convenientemente ser chamado de uma “imagem” do objeto, sem que se faça qualquer julgamento sobre sua realidade” (MS 670).

Do Universo a uma página de jornal ou um pensamento, portanto, há um fluxo de informação que nos une a todos como signos.