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	<title>Minute Semeiotic</title>
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		<title>A Tabela Periódica das 66 Classes de Signos</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 15:19:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[As 66 classes de signos arranjadas nesta figura triangular mostra  períodos regulares que revelam o aumento de complexidade da semiose na  direção da comunicação, bem como fases que descreve todo o processo de  inquirição. Aqui você tem análises e exemplos de cada classe, bem como a  possibilidade de enviar seus próprios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.minutesemeiotic.org/home.php?id=2"><img class="alignright size-full wp-image-155" style="margin-right: 0px; margin-left: 10px;" title="66_classes" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/small-sixty-classes1.jpg" alt="small-sixty-classes" width="79" height="79" /></a>As 66 classes de signos arranjadas nesta figura triangular mostra  períodos regulares que revelam o aumento de complexidade da semiose na  direção da comunicação, bem como fases que descreve todo o processo de  inquirição. Aqui você tem análises e exemplos de cada classe, bem como a  possibilidade de enviar seus próprios exemplos e idéias sobre elas.  Cada classe também é representada numa espiral &#8211; a Solenóide da Semiose &#8211;  que mostra como os aspectos das classes de signo se relacionam entre  si.</p>
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		<title>O Disco Semiótico</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 15:18:09 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Como a teoria das cores de Goethe se relaciona com a teoria das  categorias de Peirce? Você sabia que é possível encontrar as 66 classes  de signos aplicando a lógica das cores no processo de determinação entre  os três correlatos do signo? Aqui você descobre quais classes de signos  são permitidas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.minutesemeiotic.org/wheel.php?id=2"><img class="alignright size-full wp-image-153" style="margin: 0 0 10px 10px;" title="disco_semiotico" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/small-wheel1.jpg" alt="small-wheel" width="88" height="88" /></a>Como a teoria das cores de Goethe se relaciona com a teoria das  categorias de Peirce? Você sabia que é possível encontrar as 66 classes  de signos aplicando a lógica das cores no processo de determinação entre  os três correlatos do signo? Aqui você descobre quais classes de signos  são permitidas enquanto gira o disco para explorar suas possibilidades.  Descubra como nossa Tabela Periódica pode ser arranjada numa figura  triangular seguindo a lógica das cores. E entenda porque qualisignos são  vermelhos e legisignos são azuis.</p>
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		<title>As 10 classes de signo</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 14:20:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[coluna1]]></category>

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		<description><![CDATA[Confira como as classes de signos discutidas por Peirce no Syllabus de  1903 se encaixam em nosso esquema geral. Você as encontrará nesse  preciso arranjo triangular em Tabela Periódica das 66 classes.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.minutesemeiotic.org/genuine.php?id=2"><img class="alignright size-full wp-image-151" style="margin: 0 0 3px 3px;" title="10_classes" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/small-ten-classes1.jpg" alt="small-ten-classes" width="79" height="79" /></a>Confira como as classes de signos discutidas por Peirce no Syllabus de  1903 se encaixam em nosso esquema geral. Você as encontrará nesse  preciso arranjo triangular em Tabela Periódica das 66 classes.</p>
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		<title>Semiótica de Peirce</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[menu-superior]]></category>

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		<description><![CDATA[
First phase: 1867 to 1883 &#8211; The triadic sign and the denial of the Cartesian intuition
Peirce starts to develop his theory of Sign already in the first articles published by him, between 1867 and 1871. The first of them, which many scholars consider Peirce’s most important contribution to occidental philosophy, is “On a New List [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<h3 id="toc-fragmentos-esparsos">Fragmentos esparsos</h3>
<p>Peirce nunca escreveu um tratado de semiótica. As idéias de sua teoria dos signos precisaram ser coletadas de algumas dezenas de artigos publicados, mas principalmente de manuscritos e anotações em cadernos e de cartas que trocou ao longo de quase meio século. A compilação dos textos coletados de tempos e fontes tão diversas mostra uma teoria em constante evolução. Não houve um só momento em que Peirce, ao se debruçar sobre sua classificação dos signos, não introduzisse novos termos e revisasse sua produção anterior. Ainda assim, na sua vasta arquitetura filosófica, a semiótica é um liame tênue, mas capaz de colocar em contato as várias outras teorias e doutrinas que Peirce desenvolveu. Ela comparece em artigos e cartas dedicados à lógica, à matemática e à metafísica, obrigando Peirce a adaptar a terminologia semiótica ao vocabulário de cada uma dessas ciências. Por isso, a tarefa de mapear a evolução da semiótica de Peirce exige de seus comentadores o conhecimento nas várias disciplinas com as quais dialogou, o que só foi possível recentemente e, ainda assim, de maneira incompleta.</p>
<p>Uma questão de saída, que tem produzido muita polêmica entre os especialistas, é sobre como devemos encarar o desenho geral da evolução do pensamento de Peirce. Alguns, como Ransdell, crêem que ele manteve durante toda sua carreira a essência dos argumentos apresentados no <em>Nova Lista</em>. Murphey (1993, p.3), por outro lado, afirma que a arquitetura filosófica de Peirce, incluindo sua semiótica, assemelha-se a uma casa cujo interior está em contínua reforma, embora preservando o máximo de sua estrutura básica. Short (2004) também afirma que Peirce abandonou muitas de suas idéias juvenis, principalmente aquelas ligadas ao seu passado nominalista. Savan (1977, p. 179) chega a dizer que teoria dos signos do Peirce maduro tem pouco a ver com sua primeira formulação na década de 1960. É preciso, portanto, conhecermos um pouco sobre como essas mudanças podem ter acontecido.</p>
<p>O estudo dos signos está presente na vida intelectual de Peirce desde pelo menos meados da década de 1860, quando ele era ainda um aluno de graduação em Harvard. Em 1865, com apenas 26 anos, Peirce fez uma série de conferências sobre a lógica da ciência, em que ele demonstra dominar a filosofia transcendental de Kant, os fundamentos da lógica e da teoria da probabilidade, bem como a questão sobre a representação em geral – ou como surgem as idéias na mente humana (Queiroz, 2004, p. 73). A questão da origem das nossas primeiras concepções é um problema lógico de primeira magnitude, pois dele depende a garantia de verdade das proposições. Peirce estudou como esse problema foi tratado pelos grandes pensadores que o antecederam, extraindo lições desde os filósofos da Antiguidade, principalmente Platão e Aristóteles, passando pelos medievais até chegar aos seus contemporâneos do século 19.</p>
<p>O mais próximo que temos de uma exposição sistemática da teoria dos signos, feita pelo próprio punho de Peirce, é uma brochura escrita para acompanhar de uma série de palestras que deu no Instituto Lowell, em Cambridge, durante o mês de outubro de 1903, dedicadas principalmente à lógica. Ela é normalmente referida como <em>Syllabus</em> entre os comentadores, muitos dos quais a consideram a versão mais acabada de sua semiótica. Nela aparece, por exemplo, o famoso triângulo invertido com dez classes de signos criados a partir de três divisões triádicas.</p>
<p>No entanto, Peirce jamais considerou o <em>Syllabus</em> como a palavra final sobre sua teoria dos signos. Como veremos, a classificação de 1903, representou apenas o início de uma nova rodada de revisão criativa de sua semiótica que se estendeu pelos anos de 1905 e 1906 e que, na verdade, jamais se completou. As tricotomias, que no <em>Syllabus</em> eram três, a partir de 1905 passaram a ser dez, com a perspectiva de que as classes de signos poderiam ser contadas às milhares. Entre 1907 e 1909, Peirce havia levado sua semiótica a direções tão novas que a classificação do <em>Syllabus</em> nem sequer era considerada por ele um ponto de partida para seus novos exercícios classificatórios.</p>
<h4 id="toc-sintese-de-tradicoes">Síntese de tradições</h4>
<p>Peirce derivou sua concepção de semiótica como lógica provavelmente da leitura dos filósofos empiristas ingleses. John Locke em 1690 já afirmara a necessidade de um novo tipo de lógica, que batizou de semeiotic, explicando que se trataria de uma doutrina dos signos que a mente faz uso para o entendimento das coisas. Ainda na tradição britânica, Peirce foi influenciado pela lógica de Stuart Mill, bem como pelos escritos de William Hamilton. O empirismo dos ingleses enfatizava a importância da inferência indutiva e os conceitos de conotação (as qualidades predicáveis de um termo) e denotação (as coisas às quais um termo se aplica) como quantidades lógicas fundamentais. Os lógicos ingleses consideram essas duas quantidades essenciais para a classificação das formas de raciocínio e elas também exerceram um papel importante na formulação da semiótica de Peirce.</p>
<p>No entanto, já nos seus primeiros textos Peirce afirma que essas duas quantidades não dão conta de um fenômeno central na lógica, que é o crescimento ou evolução do significado dos termos. Por isso, ele expande a dicotomia denotação/conotação introduzindo um terceiro elemento: a informação (chamada, mas tarde de significação). A informação é um componente idealista lançado por Peirce no interior da lógica empirista, mas os desdobramentos dessa introdução teriam conseqüências futuras importantes para sua teoria dos signos, principalmente em sua fase madura, quando ele abraçou a realidade da terceiridade. Enquanto a semiótica misturava-se indissoluvelmente com a metafísica, a informação passou a ser o fundamento de um tipo de “realismo idealista”, ou idealismo objetivo (Ibri, 1992, p. 55 e ss), que prega serem as formas universais os agentes que determinam os objetos do mundo.</p>
<p>Também é preciso lembrar que uma das grandes batalhas intelectuais de Peirce foi produzir uma síntese filosófica que pudesse extrair o melhor das tradições idealista (germânica) e empirista (britânica) sem perder de vista os últimos desdobramentos científicos de sua época. De um lado, essa preocupação que o levou a um mergulho na filosofia medieval, tentando encontrar as raízes das duas tradições que ele procurara unificar. A partir da leitura de escolásticos como William Occam e Duns Scotus, Peirce chegou à teoria dos signos dos estóicos e, principalmente, à definição de implicação material creditada a Filo de Megara, considerada por Peirce como a mais essencial das relações lógicas. De outro, levou-o a leitura dos grandes nomes da filosofia alemã, como o filósofo matemático Leibniz e os idealistas Hegel e Schiller (Esposito, 1999, L1).</p>
<p>O lado naturalista de Peirce, vinculado a sua prática como químico e geodésico e responsável por desenhar e realizar experimentos, também teve forte influência no desenvolvimento de sua semiótica. Peirce estava atento aos desdobramentos do evolucionismo das espécies lançado por Darwin e das muitas vantagens de se realizar uma classificação dos elementos químicos de Mendeleev segundo suas valências e possibilidades de ligação. Peirce também estudou a classificação zoológica realizada por Louis Agassiz, de quem ele foi um aluno direto (Esposito, 1999, L1).</p>
<p>Para Peirce, a ciência deveria começar com um esforço para desvendar e elencar as classes naturais dadas pela observação – ou seja, pela fenomenologia. Feita a tipologia, a ciência deveria então proceder em classificar, isto é, arranjar as classes naturais de acordo com suas relações e afinidades. Esse procedimento deveria produzir uma classificação arquitetônica de todas as possíveis ciências (não só as atuais, mas também as futuras que se encaixariam nas lacunas deixadas abertas), em que as mais abstratas, como a matemática, deveriam oferecer subsídios para as mais empíricas.</p>
<p>A primazia da matemática no edifício classificatório das ciências, bem como seu papel de provedora de subsídios para as demais ciências, fizeram com que Peirce mantivesse uma incessante pesquisa sobre os fundamentos da matemática e sua relação com outras ciências, principalmente com a lógica. Vem da matemática, por exemplo, a terminologia de três categorias. Do estudo da relação entre lógica e matemática nasceu uma lógica algébrica, que Peirce desenvolveu independentemente de Frege. Peirce também produziu uma axiomatização dos números naturais e estudou detalhadamente os postulados e teoremas da geometria euclidiana, bem como as conseqüências das novas geometrias propostas por Riemann e Lobatchevski. Esses estudos o levaram a pesquisar a noção de relação, de infinito e de contínuo, que ele procurou aplicar a um tipo especial de topologia estreitamente relacionada à sua semiótica e à sua lógica gráfica.</p>
<p>Nas primeiras tentativas de classificar as ciências, a lógica aparecia como um ramo subalterno da semiótica: enquanto esta última se preocupava com signos em geral, caberia à primeira focar sua atenção nos símbolos e nas figuras lógicas diretamente relacionadas a eles: o termo, a proposição e o argumento (este último também chamado de silogismo ou inferência). A primeira contribuição importante de Peirce para a lógica, ainda na década de 1860, foi uma classificação dos silogismos aristotélicos sob a égide de suas categorias. Mais tarde, Peirce passou a considerar semiótica e lógica como sinônimas (Houser, 1992, p. xxx) − e boa parte de sua pesquisa concentrou-se na produção de uma classificação para todos os signos possíveis.</p>
<p>A esse trabalho de desvendar tipologias de signos e classificá-las Peirce deu o nome de <strong><em>gramática especulativa</em></strong>, que deveria ser o primeiro ramo da semiótica. O segundo grande ramo da semiótica é a <strong><em>lógica crítica</em></strong>, considerada como a ciência da verdade das representações, ou seja, o estudo da possibilidade de um signo representar seu objeto verdadeiramente. Por fim, Peirce concebeu a <strong><em>retórica universal</em></strong> (ou metodêutica) como o terceiro ramo da semiótica, definindo-a como o estudo dos efeitos do signo sobre seus intérpretes – ou, dito de outra maneira, o estudo de como a “forma” é transmitida do objeto ao interpretante, tendo o signo como veículo. É sob o ponto de vista da retórica que a semiose é vista como comunicação orientada para um propósito. Na sua maturidade, Peirce defendeu que a semiose e a comunicação não se restringem a mentes humanas, mas são fenômenos ontológicos que produzem a comunhão entre todas as mentes com a totalidade de uma quase-mente universal (Murphey, 1993, p. 353).</p>
<p>Pretendemos nos concentrar aqui na evolução da semiótica de Peirce, mas não poderemos deixar de relacioná-la com outros campos de interesse filosófico de Peirce, como sua cosmologia e, especialmente, o seu pragmatismo. Afinal, boa parte dos esforços de Peirce para desenvolver sua teoria dos signos, notadamente após 1900, deveu-se à sua tentativa de oferecer uma prova rigorosamente lógica – ou, ao menos, filosoficamente consistente – à sua versão do pragmatismo (que Peirce às vezes prefere chamar de pragmaticismo, por razões que veremos a seguir).</p>
<p>É especialmente interessante acompanhar como a semiótica, inicialmente usada por Peirce como um instrumento de prova do método pragmatista, vai aos poucos crescendo em importância para abranger a ação do signo em todas as dimensões possíveis da realidade, e não apenas na clarificação dos conceitos, como se propunha originalmente o pragmatismo (Houser, 1992, p. xxxv).</p>
<p>Vamos ver, sucintamente, como essa evolução se deu.</p>
<h3 id="toc-primeira-fase-1867-a-1883-o-signo-triadico-e-a-negacao-da-intuicao-cartesiana">Primeira fase: 1867 a  1883 &#8211; <strong>O signo triádico e a negação da intuição cartesiana</strong></h3>
<p>A teoria dos signos de Peirce começa a se desenvolver já nos primeiros artigos publicados por ele, entre 1867 e 1871. O primeiro deles, que muitos <em>scholars</em> consideram a mais importante contribuição de Peirce para a filosofia, foi o “Sobre Uma Nova Lista de Categorias” (1867), referido normalmente na forma abreviada de <em>Nova Lista</em>. Nele, Peirce articula uma revisão das tábuas de categorias de Aristóteles e Kant, expondo pela primeira vez sua ontologia tripartite. Nos dois anos seguintes (1868 e 1869), Peirce publica três outros artigos no <em>Journal of Speculative Philosophy</em>, hoje referidos como a “série sobre a cognição”. Ele mantém sua preocupação com a origem do conhecimento, mas agora se propõe a apresentar uma alternativa para a gnosiologia cartesiana. Peirce refuta duramente a idéia de que o conhecimento se funda sobre uma dúvida artificial, como é o caso de <em>cogito</em>. Ao contrário, defende que a pesquisa comece com uma dúvida genuína sobre o mundo, procurando a resposta sem que tenhamos que nos despir de nossos preconceitos, mas corrigindo-os ao longo da própria pesquisa.</p>
<p>A disputa entre nominalismo e realismo faz o pano de fundo desses textos. Ela é uma derivação da polêmica “questão dos universais” que vem dividindo filósofos desde a Antiguidade Clássica. Grosso modo, quem acredita que os conceitos são apenas nomes que criamos para subsumir as impressões dos sentidos num conceito geral, é considerado um nominalista. Os realistas, por outro lado, são aqueles que acreditam que os universais, na forma de leis e potencialidades, existem efetivamente na realidade, determinando-a independentemente do que pensemos a respeito dela. Se o nomimalismo estiver certo, estamos condenados ao individualismo, pois cada um de nós desenvolverá suas próprias concepções sobre o mundo; mas se o realismo estiver certo, apenas a união dos esforços de todas as mentes poderá formar um conceito verdadeiro sobre a realidade. O nominalismo conduz ao solipsismo, mas o realismo abre as portas para o pragmatismo.</p>
<p>Essas duas grandes correntes tiveram várias ramificações, inclusive com doutrinas que procuravam uma via de meio entre os extremos que representam. Peirce, provavelmente a reboque de Kant, foi um nominalista assumido na juventude, mas mudou de opinião ao longo de sua vida e chegou à maturidade proclamando-se um realista extremado. O fato de Peirce ter abandonado o nominalismo não significa que tivesse se tornado antiidealista sob todos os aspectos. Como vimos ao citarmos seu conceito de informação, enquanto Peirce deva ser considerado um realista no campo da lógica, ele também foi um defensor do idealismo objetivo na metafísica. É por isso que alguns preferem dizer que Peirce desenvolveu um idealismo-realismo <em>sui generis</em>.</p>
<p>O artigo inaugural de Peirce – o <em>Nova Lista</em> – é marcadamente kantiano e nominalista. Nele, o elemento básico que condensa o conhecimento sobre o mundo é chamado de <strong>representação</strong> – uma manifestação mental que faz a ponte entre a realidade e o intelecto. Tudo começa com a síntese das impressões dos sentidos, em que a mente cria conceitos gerais por um processo de comparação. Revisando a tábua das categorias de Aristóteles e de Kant, Peirce propõe que aquelas presentes à priori na mente durante essa tarefa podem ser divididas em dois grandes grupos: Ser e Substância. Enquanto a Substância permanece incognoscível, no sentido transcendental kantiano, o Ser pode ser representado de três maneiras que refletem possíveis tipos de comparação: qualidade (quando a comparação se refere a um fundamento, ou <em>ground</em>), relação (quando se refere a um correlato) e representação (quando se refere a um interpretante).</p>
<p>Essa mesma triadicidade é aplicada em seguida à representação, dando origem ao que Peirce chama então de semelhanças, índices e símbolos. O termo <strong>representação</strong> usado no <em>Nova Lista</em> equivale ao que mais tarde Peirce chamaria de a relação genuína entre signo, objeto e interpretante (S-O-I). Existe, portanto, uma relação triádica indecomponível no signo: o significado não se dá na relação entre o signo e o objeto apenas, como afirmavam a maior parte das teorias dos signos anteriores, mas exige um terceiro correlato. Esse novo elemento é o interpretante, visto como o efeito produzido na mente pelo signo e, portanto, um outro signo. Nessa época, porém, Peirce ainda via a representação restrita ao pensamento – uma espécie de discurso mental internalizado, baseado apenas sobre conceitos gerais dependentes da linguagem (Short, 2004, p. 10).</p>
<p>Como se viu, as divisões por três também se mostram a principal característica de seu sistema filosófico-semiótico desde 1867. Aplicando-as à lógica clássica, Peirce cria sua primeira seqüência de sucessivas divisões: a representação é tricotomizada em ícone, índice e símbolo; o símbolo, por sua vez, é tripartido em termo, proposição e argumento; e o argumento, finalmente, é tripartido em hipótese, indução e dedução. Essa sequência de tricotomias que parte da representação para chegar às três figuras lógicas marca o início de uma lenta e contínua aproximação entre lógica e semiótica. É importante notar, porém, que o índice aqui ainda não é tratado como um elemento compulsivo externo ao pensamento, mas como um conceito puramente intelectual e, portanto, ainda nominalista. Somente por volta de 1885 o índice se tornará um individual puro (Short, 2004, p. 12).</p>
<p>Nos três artigos seguintes ao <em>Nova Lista</em>, destinados especificamente ao problema da cognição, Peirce eliminou a bipartição entre Ser e Substância, assumindo a tese de que não existe o objeto incognoscível apresentado por Kant em sua filosofia transcendental. O propósito central desses artigos é combater a idéia de que a cognição humana deve começar com uma dúvida, como afirmara Descartes. Para Peirce, a cognição é um processo dinâmico que não tem um ponto inicial de partida, mas acontece <em>in media res</em>. Nós devemos partir de nossos preconceitos, ou idéias imperfeitas e, lentamente, por meio de um processo contínuo de inferências e testes de hipóteses na realidade, tecer uma argumentação que não seja uma corrente linear, como defendeu Descartes, que não pode ser mais forte do que seu elo mais fraco, mas um cabo de fibras que podem ser cada uma delas fina e sutil, desde que sejam tão numerosas e intimamente conectadas de forma a garantir a força de todo o argumento.</p>
<p>Para Peirce, o “trem do pensamento” é uma concatenação de conceitos que não possui começo nem fim, mas a fusão de uns nos outros de maneira que a interpretação surja como produto desse processo. Um pensamento é um signo que representa um pensamento anterior (o seu objeto) enquanto é interpretado por um pensamento subseqüente (o seu interpretante), e assim sucessivamente <em>ad infinitum </em>(Short, 2004, p. 9). A semiose, a ação do signo, assume um papel fundamental na busca da pragmática da verdade, que é esperada como o resultado final do processo. Embora esta seja uma série infinita, não precisa arrastar-se para sempre porque as inferências ocorrem em instantes infinitesimais. Peirce recorre ao paradoxo da Zeno sobre a corrida entre Aquiles e a tartaruga para mostrar que a idéia de uma série infinita de interpretantes não implica uma semiose interminável, pois assim como Aquiles acabará por alcançar a tartaruga, a série infinita de inferências produzirá um resultado cognitivo determinado.</p>
<p>Numa resenha crítica de 1871, dedicada à reedição da obra do bispo George Berkley (um conhecido nominalista do passado, que viveu entre 1685 e 1753), Peirce dá mais um passo na direção de um realismo cada vez mais decidido, embora ainda distante do tipo que viria a assumir nas décadas seguintes. Faltava-lhe, ainda, uma noção clara do papel da segundidade como expressão de uma realidade que existe fora da mente, e não como construto mental feito a partir da síntese de signos-pensamentos. Esse será o papel assumido pelo índice em sua semiótica madura. Apesar de já ter feito a tripartição do signo em semelhanças, índices e símbolos, Peirce ainda afirma que o lógico deve considerar apenas os tipos de representação que surgem do símbolo. Aquilo que é exterior à mente não deve, portanto, interessar à lógica.</p>
<p>Esse resquício nominalista perdurou por toda a década de 1870 e ainda influenciou o texto inaugural do pragmatismo, “Como Clarear Nossas Idéias”, publicado em 1878. Segundo Houser (2002), com esse artigo Peirce pretendia “que o pragmatismo fosse um melhoramento do método de Descartes de classificar idéias por meio do teste de sua clareza e distinção”. O pragmatismo aparece restrito a um método para tornar claros os <strong>conceitos </strong>apenas, relacionando o significado às conseqüências implicadas na sua aceitação. Seu nominalismo é explícito quando Peirce diz aos leitores que nada nos impede de afirmar que  “todos os corpos duros permanecem perfeitamente macios até que os toquemos” (EP1: p. 132), ou seja, que a idéia de solidez é algo que só existe nas nossas mentes e nada tem a ver com a realidadade das coisas.</p>
<h3 id="toc-segunda-fase-1883-ate-1896-a-descoberta-da-quantificacao-e-a-semiose-do-mundo-natural">Segunda fase: 1883 até 1896 &#8211; A descoberta da quantificação e a semiose do mundo natural</h3>
<p>No restante da década de 1870, Peirce abandonou a disputa nominalismo-realismo e dedicou muitos esforços na promoção de seu pragmatismo nas reuniões do Clube Metafísico de Cambridge, do qual era sócio-fundador, e na construção de um sistema lógico algébrico inspirado na recém-publicada obra de Boole. A colheita de dez anos de estudos começou a aparecer em 1883, quando Peirce e o mais brilhante de seus alunos na Universidade Johns Hopkins, Oscar Mitchell, concluíram que a lógica precisava de índices para expressar a idéia de quantificação (Short, 2004, p. 12). Em outras palavras, era preciso usar seletivos tais como “algum” e “todo” para indicar o sujeito de um predicado geral. Essa descoberta foi feita independentemente de Frege, cujo trabalho permanecia desconhecido. Também nessa época, Peirce estudou a obra do matemático George Cantor sobre o contínuo (Houser, 1998, p. xxviii), que o inspirou a desenvolver uma topologia e uma teoria dos conjuntos para enfrentar a questão do contínuo.</p>
<p>Esses avanços produziram uma reformulação em todo seu sistema filosófico, e tiveram repercussão também na semiótica. A quantificação a partir de índices, por exemplo, faz Peirce reconhecer que o mundo exterior possui uma realidade e que a lógica precisa aprender essa lição. Num importante texto sobre a álgebra da lógica, de 1885, Peirce fez a ponte entre sua descoberta dos quantificadores lógicos e sua semiótica, afirmando que uma notação lógica completa deveria possuir signos gerais ou convencionais (símbolos), quantificadores ou seletivos da mesma espécie que os pronomes demonstrativos (índices) e signos de Semelhança. Os índices deixavam de ser coadjuvantes no processo do conhecimento e representação.</p>
<p>O efeito mais importante da descoberta do papel do índice foi o abandono da tese anterior de que toda cognição deve ser precedida por outra cognição, <strong><em>ad infinitum</em></strong> (o “trem do pensamento”). Como um alfinete que usamos para indicar um lugar no mapa, o índice tem a capacidade de selecionar a ocorrência de um conceito geral, que então passa a ser o sujeito de um predicado. E como o índice se conecta existencialmente com o assunto que ele denota, então também a proposição se conecta a esse assunto. Assim, uma cognição não precisa ser necessariamente encadeada a outra. Junto com o novo papel reservado aos índices, Peirce refinou a terminologia de sua semiótica. O que antes era chamado de “semelhança”, “cópia” e “imagens”, agora passará a ser chamado de <strong>ícone</strong>. E a hipótese que, como vimos, havia sido apresentada nos artigos de 1870, agora recebe o nome de <strong>abdução</strong> ou, às vezes, de <strong>retrodução</strong>.</p>
<p>Também nessa época, Peirce adotou a noção de degeneração, emprestada da geometria projetiva, para aplicá-la à lógica das relações. Assim, ícones, índices e símbolos passam a ser derivados dos três diferentes tipos de relação que um signo pode ter com seu objeto, de acordo com a teoria das categorias. O ícone relaciona-se de forma monádica, por semelhança, quando signo e objeto possuem a mesma propriedade, ou por exemplificação, quando o objeto é uma propriedade que o signo possui. O índice apresenta uma relação diádica com seu objeto, por possuir uma conexão real com ele. Apenas o símbolo possui uma relação genuinamente triádica e, portanto, intrinsecamente lógica, tendo um poder de representação que se dá por convenção arbitrária (CP 2.274).</p>
<p>Ao mesmo tempo em que estreitava o vínculo entre a semiótica e a categoriologia, Peirce alimentou, em 1887, uma polêmica contra a visão mecanicista do universo de Herbert Spencer (CP 1.33). Segundo Peirce, a causação meramente mecânica, do tipo causa-efeito não pode explicar os fenômenos de crescimento e desenvolvimento presentes no universo. Havia a necessidade, portanto, de um terceiro elemento “virtual”, no sentido de ter uma virtude que se efetivará no futuro. Em outras palavras, o universo não é mecanicista, mas teleológico e guiado por propósitos.</p>
<p>Essa concepção de causação final também foi o primeiro passo para a criação de uma metafísica semiótica, em que a Semiose fosse considerada a evolução teleológica de uma realidade composta por signos – visão que só se efetivaria duas décadas mais tarde, em 1907. Por volta de 1888, Peirce afirmava que havia apenas três elementos ativos no mundo: primeiro, o acaso; segundo, a lei; e terceiro, a capacidade de formar hábitos. Embora não houvesse ainda uma identificação explícita entre esses três estágios ontológicos e as tricotomias que derivam os signos, Peirce caminhava nessa direção.</p>
<p>Outros dois passos importantes para a síntese entre metafísica e semiótica ocorreram de 1892 a 1893, quando Peirce formulou suas doutrinas do tiquismo (a existência de acaso absoluto) e sinequismo (a existência de uma profunda ligação entre todas as coisas do universo, expressa na forma do contínuo). Em sua exposição do tiquismo, o acaso ou elemento de espontaneidade é considerado um elemento criativo de um universo concebido como mente viva. Nessa formulação de seu idealismo objetivo, Peirce afirma que a matéria nada mais é do que a mente enrijecida pelo hábito (CP 6.158).</p>
<p>Em meados da década de 1890 e como decorrência natural de seus estudos sobre o papel da segundidade na lógica, Peirce proclamou sua aceitação daquilo que o escolástico medieval Duns Scotus definia como <em>haecceitas</em>, ou o puro existente <em>hic et nunc</em>, sem nenhuma qualidade ou generalidade (Houser, 1992, p. xxvii). O choque de realidade traz mudanças na sua maneira de ver o pragmatismo: a realidade que deixa de ser considerada aquilo que a última opinião do processo de pesquisa efetivamente revelará para ser considerada uma esperança de acordo final que estimula a comunidade dos pesquisadores a continuar a busca. Em outras palavras, a realidade começa a assumir um modo condicional, ou aquilo que <strong><em>seria</em></strong> revelado se todos os esforços possíveis de pesquisa fossem realizados; enquanto a Segundidade pura, nas vestes do acaso absoluto, acrescenta continuamente novidades criativas que influenciam o processo evolutivo.</p>
<p>Em 1895 e 1896, Peirce escreveu vários esboços de capítulos para um livro de lógica que jamais foi publicado. Neles, mostrou mais uma vez as relações íntimas entre lógica e semiótica, explicitamente comparando a Semiose com o processo de raciocínio mental. Segundo Peirce, uma proposição, por exemplo, deve sempre conter ícones e índices. Além disso, a abdução ganha um destaque cada vez maior, sendo considerada o tipo de raciocínio capaz de oferecer conhecimento novo e, portanto, essencial para os desenvolvimentos da lógica e das ciências em geral. Peirce explica a abdução como uma forma de instinto baseado na afinidade de nossa mente com a natureza, enfatizando que a lógica do pragmatismo é essencialmente abdutiva e, portanto, vinculada a processos não racionais e, provavelmente, não-conscientes da mente.</p>
<p>Enquanto alargava o campo da semiótica, Peirce passou a distinguir dois sentidos para a lógica: um mais tradicional, restrito às formas de argumento e suas condições de verdade; e outro mais extenso, em que vislumbrava uma teoria geral dos signos que ultrapassasse os limites da lógica tradicional para penetrar na antecâmara da razão.</p>
<h3 id="toc-terceira-fase-1896-ate-1905-os-estudos-da-percepcao-e-a-classificacao-de-1903">Terceira fase: 1896 até 1905 &#8211; Os estudos da Percepção e a classificação de 1903</h3>
<p>A terceira fase começa quando Peirce dá mais um passo na direção do realismo lógico ao aceitar, a partir de 1896, o universo das possibilidades como presente ontologicamente no mundo (Short, 2004, p. 15). Em 1987, Peirce passa a defender um tipo de realismo que lembra o de Aristóteles, mas com ênfase especial na <em>haecceitas</em> de Scotus. As três categorias – possibilidade, reação e mediação – são consideradas por Peirce completas e irredutíveis, recebendo os nomes de primeiridade, segundidade e terceiridade, extraídos da matemática. Essa nova posição levou Peirce a retomar seus estudos sobre a cognição, feitos anteriormente sob forte influência kantiana, para agora apresentá-los na nova roupagem realista de sua filosofia.</p>
<p>No ano seguinte, em 1898, o velho amigo das reuniões filosóficas do Clube Metafísico, William James (considerado agora um dos mais proeminentes intelectuais norte-americanos), tornou público que Peirce era o criador da filosofia do pragmatismo. O alvoroço em torno de Peirce que se seguiu a este anúncio produziu nele uma dupla reação: de um lado, passou a criticar aberta e acidamente aqueles que usavam o termo pragmatismo fora de seu escopo essencialmente lógico, sem poupar nem mesmo o próprio James, acusado de manchar o pragmatismo com seu psicologismo de pouco rigor lógico. De outro lado, assumiu a missão de revisar os fundamentos do pragmatismo, oferecendo-lhe uma prova definitiva dentro do âmbito original de “método para clarear conceitos”. Peirce achava possível fazer isso a partir dos estudos em lógica e semiótica que havia realizado após a primeira formulação da máxima pragmática.</p>
<p>O começo da década de 1900 reacendeu em Peirce o desejo de publicar em livro suas idéias e resultados obtidos no campo da lógica, principalmente em relação à topologia e à modalidade e ao desenvolvimento da sintaxe lógica dos grafos existenciais. Ele chegou a produzir um resumo dos temas que abordaria, que hoje é considerado a melhor exposição da arquitetura das idéias de Peirce feito de sua própria lavra (CP 4.227-322). Uma vez mais, porém, sua esperança de sistematizar as contribuições que fizera ao longo dos anos passados num grande volume de lógica ficou frustrada por falta de apoio financeiro. Enquanto o processo de decisão sobre seu livro se arrastava, Peirce retomou sua teoria dos signos procurando nela a desejada prova do pragmatismo. Ao mesmo tempo, William James o convidou para duas séries de conferências a serem oferecidas em 1903: uma em Harvard, dedicada ao pragmatismo, e outra no Instituto Lowell, em Cambridge, voltada especificamente para a lógica.</p>
<p>O resultado desse duplo estímulo foi uma revisão dos fundamentos de seu sistema filosófico e, como decorrência, uma revisão também de sua teoria dos signos. Em 1902, ao retomar seus artigos e manuscritos dedicados à discussão da teoria da evolução e de sua relação com as leis da física, produzidos entre 1891 e 1898, Peirce conclui que o propósito que guia a evolução das espécies e das leis do universo não pode estar baseado na consciência mas que, ao contrário, é a consciência que deve ser um subproduto de uma movimento teleológico na direção de um propósito. Esta é, em resumo, a tese aristotélica da causa final, que Peirce adota como fundamento da evolução do signo, ou semiose.</p>
<p>Peirce concluiu que lógica e semiótica são animadas pelo mesmo princípio guia (<em>leading principle</em>), podendo ser tomadas como sinônimos. Tomando emprestada a divisão medieval das artes liberais em gramática, lógica e retórica, Peirce pela primeira vez anuncia sua conhecida repartição da semiótica em gramática especulativa, lógica crítica e retórica (ou metodêutica). Ainda no âmbito das conferências sobre o pragmatismo, havia a necessidade de abordar mais uma vez o problema da origem do conhecimento, que Peirce agora ataca sob o ponto de vista da percepção, aproveitando seus estudos em quantificação e no papel do índice na fundação da lógica. Começando mais uma vez em 1902, Peirce desenvolve uma teoria da percepção nova, destinada a conjugar o realismo lógico com seu falibilismo e que terá sua primeira exposição nas palestras de Harvard, em março de 1903.</p>
<p>Peirce afirma que as primeiras premissas lógicas brotam no contato com a realidade na forma de juízos perceptivos. Isso não significa que esses juízos sejam intuições imanentistas – o que significaria render-se à tese cartesiana tão duramente combatida nos artigos sobre a cognição. Os juízos perceptivos são hipóteses da mesma natureza das abduções e, portanto, falíveis. Não existe, portanto, qualquer possibilidade de que possamos conhecer imediatamente as relações entre as coisas, embora possamos fazer suposições sobre elas, que são aceitas cegamente até que venham a ser descartadas ou reformuladas por juízos subseqüentes. Dessa forma, Peirce dá uma resposta à questão das primeiras cognições sem recorrer ao infindável trem do pensamento nem abalar uma das colunas principais do pragmatismo: o falibilismo (Short, 2004).</p>
<p>Em algum momento entre as conferências de Harvard e a redação do <em>Syllabus</em> para as conferências do Instituto Lowell, oferecidas em outubro de 1903, Peirce teve um <em>insight</em> que mudou a estrutura de sua classificação dos signos. Segundo Freadman (2004), essa mudança é evidente na maneira como a relação sígnica se complica se compararmos com a que Peirce vinha usando até então: pela primeira vez, os signos são apresentados como classes compostas de <strong><em>três </em></strong>correlatos. Ou seja, aparece o que viria ser chamado no <em>Syllabus</em> de primeiro correlato, ou a tricotomia do signo “ele mesmo”, sem referência ao seu objeto ou interpretante.</p>
<p>Agora, o signo é uma relação de três correlatos. No primeiro, o signo pode ser monádico (batizado de quali-signo), um objeto ou evento singular (um sin-signo) ou um tipo de lei governando suas réplicas (legi-signo). No segundo correlato, que considera a relação do signo e seu objeto, os signos podem ser os já conhecidos ícones, índices e símbolos. No terceiro correlato, finalmente, os signos podem ser remas (o genérico para os termos lógicos), dici-signos (o genérico das proposições) e argumentos (o genérico dos silogismos ou inferências).</p>
<p>Seguindo uma ordem de implicação material, em que o primeiro correlato determina o terceiro por meio do segundo, Peirce chega então a dez classes de signos que ele chama de genuínos e classifica distribuindo-os numa pirâmide invertida. Além disso, Peirce discorre sobre algumas das possíveis degenerações que os tipos e classes de signos podem sofrer e sua utilidade para a lógica. Dada a audiência do Instituto Lowell, não há dúvida que o <em>Syllabus</em> e seus manuscritos preparatórios refletem a preocupação de Peirce em explicitar sua semiótica como um sinônimo para a lógica concebida de acordo com os princípios da matemática. Esse foco na vinculação semiótica-lógica parece ter produzido uma mudança radical na maneira como Peirce concebia as relações sígnicas. Isso está de acordo com o desenvolvimento que imprimiu à sua teoria dos signos nos anos seguintes, que já não retomam mais os termos e conceitos usados antes de 1903, mas na verdade enfatizam e desdobram os resultados de sua pesquisa naquele ano.</p>
<p>Ainda em 1903, outro evento importante na vida intelectual de Peirce, principalmente em relação à teoria dos signos, foi o início da correspondência com Victoria Lady Welby. Peirce havia revisado favoravelmente o livro <strong><em>What Is Meaning?</em></strong>, de Welby, abrindo as portas para um contato por correspondência que durou até 1911, um ano antes da morte de Welby. As cartas trocadas entre eles mostram as enormes transformações que Peirce deu à sua teoria na fase final de sua vida. Alguns <em>scholars</em> acreditam, inclusive, que Welby teve uma influência decisiva nessa fase, o que explicaria, ao menos em parte, por que Peirce dedica tantos esforços para desvendar os tipos de interpretantes presentes na semiose (Santaella, 2004). Em 1904, por exemplo, Peirce já anunciava a necessidade de tricotomizar o interpretante do signo de acordo com as categorias criando, respectivamente, os termos emocional, energético e lógico para qualificar os três estados ontológicos que o interpretante pode assumir.</p>
<p>Depois de fundar a origem do conhecimento na Percepção e de desenvolver uma taxonomia dos signos que naquele momento lhe parecia aceitável para lidar com os problemas da lógica, Peirce voltou sua atenção para o terceiro ramo da semiótica, o da retórica. Sua intenção era abordar mais uma vez os efeitos esperados pela ação do signo sobre o interpretante, mas agora os vendo a partir dos resultados conseguidos dos últimos anos. Em 1904, por exemplo, Peirce chega a afirmar que a representação tem o poder de causar fatos reais (EP: 300), e que os interpretantes do signo não precisam ser obrigatoriamente conceitos, como pregava sua versão ainda intelectualista da Semiose como encadeamento de pensamentos, mas também podem ser sentimentos e efeitos físicos. Dessa forma, adianta a divisão dos interpretantes em emocionais, energéticos e lógicos, que se tornará explícita em 1907.</p>
<h3 id="toc-quarta-fase-1905-ate-1914-a-multiplicacao-das-tricotomias-e-a-nocao-de-interpretante-ultimal">Quarta fase: 1905 até 1914 &#8211; A multiplicação das tricotomias e a noção de interpretante ultimal</h3>
<p>A última fase da semiótica de Peirce é a menos conhecida e compreendida. Isso se deve, em parte, ao fato de ela representar uma reviravolta na maneira de Peirce entender sua teoria dos signos, provavelmente motivada pela sua preocupação em integrar a semiótica, o pragmatismo e a cosmologia. Enquanto aparava arestas para ajustar o engate de uma disciplina na outra, fazia constantes alterações, muitas tentativamente, produzindo versões que depois eram descartadas. Seus cadernos de lógica dessa época estão cheios de rascunhos de classificações, introduções de termos novos, uma profusão de divisões triádicas e vários desenhos geométricos, principalmente triângulos, usados heuristicamente para explorar e evidenciar relações. Muitos desses rascunhos são contraditórios e, embora estejam datados, Peirce não nos autoriza a considerar os posteriores como versões necessariamente aprimoradas. Ao atingir um impasse, freqüentemente retomava classificações antigas, às vezes produzidas muitos anos antes, abandonando os resultados mais recentes.</p>
<p>Em 1905, Peirce demonstra já possuir sua noção realista da terceiridade, construída como um condicional futuro, ou “would be” que não pode ser reduzido a qualquer série de instâncias particulares. Ele corrige explicitamente sua opinião de 1878 sobre a dureza dos objetos e declara que cabe ao pragmaticismo insistir sobre a realidade das potencialidades gerais na natureza (Short, 2004, p. 15). A aceitação da realidade das leis da natureza, consideradas agora como hábitos análogos às crenças da mente, estimulou-o a aproximar a semiótica, já estendida para abranger os sintomas e sinais físicos, do pragmatismo, cujo kernell estava precisamente na noção de hábito de conduta.</p>
<p>No terceiro de uma série produzida para a revista filosófica <strong><em>The Monist</em></strong>, Peirce fez a primeira tentativa de extrair da semiótica uma prova para o pragmatismo – ou pragmaticismo, como ele eventualmente passou a chamar sua filosofia numa tentativa de dissociá-la da versão propagada por William James e seus discípulos, que Peirce acusava de subjetivista e centrada demasiadamente em resultados práticos. A verdade, porém, é que o termo pragmaticismo nunca “pegou” realmente, e o próprio Peirce voltaria a chamar sua doutrina de pragmatismo nos anos posteriores.</p>
<p>Para combater o nominalismo que contaminava as versões populares do pragmatismo, Peirce enfatizava que sua prova seria também uma prova do realismo, em que a verdade deveria ser considerada como aquilo que apareceria na opinião final da pesquisa feita por uma comunidade idealmente infinita e honestamente dedicada a essa busca. Note, porém, que esse <strong><em>summum bonum</em></strong> pragmático ainda é um <strong>conceito</strong>, ou seja, a verdade ainda é vista como aquilo que apareceria na forma de um símbolo sintetizado pela união de todas as mentes de uma comunidade de investigadores. Essa mente comunitária receberia o nome, em 1906, de <strong><em>commens</em></strong>, e o método pragmatista de busca da verdade ficaria a cargo do terceiro ramo da semiótica, o da retórica ou metodêutica.</p>
<p>No curso dessas pesquisas, Peirce descobriu que sua lógica, vista agora tal qual semiótica, poderia ser apresentada por meio da utilização de gráficos visuais – batizados por ele de grafos existenciais – capazes de realizar de forma bem mais concisa e direta a manipulação dos signos lógicos. Apesar de apresentar duas versões bastante desenvolvidas desse sistema, Peirce tampouco conseguiu completá-lo da maneira que havia desejado, provavelmente barrado por dificuldades em representar a idéia de contínuo. De qualquer forma, sua pesquisa sobre os grafos existenciais deu início a um novo ramo da lógica que nos últimos anos tem produzido resultados promissores.</p>
<p>Entre 1905 e 1906, Peirce também trabalhou intensamente sobre sua classificação dos signos, como ele mesmo afirma numa carta a Lady Welby. Suas pesquisas o convenceram de que uma classificação completa exigiria pelo menos dez tricotomias que, se relacionadas livremente, poderiam atingir uma cifra espantosa de 59.049 classes de signos (CP 1.291), mas que, considerando as limitações lógico-matemáticas impostas na sua geração, o total delas deveria se restringir a 66. Peirce também afirma que ter encontrado a necessidade de distinguir entre dois objetos semióticos: o imediato, presente no interior do signo, e o dinâmico, que permanece fora do signo; além de três tipos de interpretantes – aqui batizados de intencional, efetivo e comunicacional –, mas que depois seriam chamados de imediato, dinâmico e final.</p>
<p>Short argumenta que a introdução desses três interpretantes não substitui a tricotomização categorial, realizada em 1904, entre emocional, energético e lógico<a href="http://www.minutesemeiotic.org/#_edn1">[1]</a>. Os interpretantes imediato, dinâmico e lógico são elementos componentes do signo considerado como um sistema de relações em evolução ou, em outras palavras, como uma Classe de signo estruturado em estágios evolutivos. Já a divisão entre emocional, energético e lógico expressa o status ontológico que cada um daqueles interpretantes da Classe de signos pode assumir. Quando o signo é analisado em seus elementos e relações, a primeira divisão ocupa uma axis horizontal; a segunda, uma axis vertical. O resultado da combinação de ambas é que a interpretação de um signo dá-se sempre em três tipos de interpretantes escolhidos dentre nove possibilidades.</p>
<p>Não há dúvida que essa proliferação de interpretantes reflete uma crescente preocupação de Peirce com o terceiro ramo da semiótica, aquele da Retórica e da metodêutica. A metodêutica passa a ser considerada a retórica num sentido estreito (Bergman, 2000, pp. 246-247), ou a ciência que estuda os métodos a serem aplicados cientificamente, enquanto a Retórica mantém o sentido mais geral de comunicação. Deduzindo as implicações de sua cosmologia cada vez mais pampsiquista, Peirce conclui que o processo de interpretação não acontece apenas no interior de mentes humanas. Ao contrário, é a existência de uma contínua interpretação dos signos no mundo que permite explicar a emergência da nossa inteligência. O universo é composto de signos e tentar descobrir a realidade, a “coisa real” atrás do véu dos signos, é algo ilusório porque, como Peirce afirma numa carta a um amigo, em 1906:</p>
<p>“&#8230;esses signos são a própria coisa. Os reais são signos. Tentar descascar os signos &amp; atingir a coisa real é como tentar descascar uma cebola e atingir a própria cebola&#8230; Se não consciência, então ciência, é o verdadeiro ser das coisas; e consciência os seus co-ser <a href="http://www.minutesemeiotic.org/#_edn2">[2]</a>&#8230;”</p>
<p>Como já vimos, ao aplicar essa visão de universo mental no campo da retórica, Peirce é levado a introduzir, ainda em 1906, a idéia de <strong><em>commens</em></strong> ou co-mente, um produto da comunicação ou “fusão” das mentes que trocam informação. Na verdade, a co-mente não é apenas a fusão das mentes de uma comunidade idealmente infinita. Mais genericamente ainda, ela é o pressuposto para que o signo possa transfirir a forma do objeto ao interpretante (Houser, 1998, p. xxx). Ela é a fusão entre signo, objeto e interpretante e signo (S-O-I) no momento da comunicação, quando a informação é transmitida do objeto para o interpretante por meio do signo. O objeto assume a posição de um emissor (<em>utterer</em>), o interpretante a de um receptor (<em>interpreter</em>), o signo a de um meio (<em>medium</em>) e a mensagem a da forma ou Idéia a ser transmitida.</p>
<p>Com a introdução do conceito de co-mente, Peirce estava a um pequeno passo de finalmente engatar sua semiótica de tons metafísicos ao pragmatismo. Só lhe faltava, para isso, eliminar a âncora intelectualista que ele havia colocado sobre sua filosofia ao afirmar que o interpretante de um conceito só pode ser um outro conceito. Essa barreira é finalmente quebrada em 1907, quando Peirce adota a idéia de interpretante lógico <strong><em>último</em></strong>. Peirce compreende que o interpretante lógico último não poderia ser um outro conceito porque isso produziria uma série progressiva infinita – como já explicara em seus artigos sobre a cognição da década de 1860. Para evitar a progressão <em>ad infinitum</em>, Peirce deu ao interpretante lógico o status de um hábito ou, quando a ocasião se faz necessária, ao efeito de mudança de um hábito produzido numa mente inteligente.</p>
<p>Em 1909, enquanto rascunhava um “sistema de lógica, considerado como semiótica”, Peirce afirma que o interpretante último não é a maneira como um conjunto finito de mentes efetivamente age sob a influência de um conceito, mas como qualquer mente <strong><em>agiria </em></strong>(<em>would act</em>) sob seu efeito – uma modalização que se harmoniza finalmente com sua idéia de Terceiridade presente na natureza, anunciada em 1906. O condicional futuro, o hábito que não se esgota em nenhuma de suas ocorrências ou, melhor ainda, a própria mudança de hábito no caminho da razoabilidade plena, passa a ser o propósito de seu pragmaticismo.</p>
<p>Os especialistas discondam sobre o lugar extato do interpretante último na classificação semiótica. David Savan (<em>apud</em> Santaella, 2004, pp 78-87) acredita que a instância ultimal é a quintessência da categoria da terceiridade aplicada apenas aos <strong>interpretantes dinâmicos</strong> – aquele que se refere propriamente aos efeitos produzidos na mente do intérprete, capazes de gerar conduta deliberada, inclusive mudança de hábitos. Os outros dois interpretantes, imediato e final, não seriam para Savan tão cruciais ao método pragmatista. Na nossa opinião, porém, cabe à semiótica, como teoria geral dos signos, considerar a instância ultimal também neles. Quando a instância <strong><em>ultimal</em></strong> se dá no interpretante imediato, temos uma interpretabilidade habitualizada; quando se dá no âmbito do interpretante final, temos o próprio signo assumindo as vestes do hábito, ou seja, transformando-se num legi-signo.</p>
<p>Se por um lado semiótica e pragmatismo aparecem de mãos dadas pelo conceito de hábito, por outro essa união obriga Peirce a rever a força da máxima pragmática. Isso porque o hábito não se sustenta apenas sobre considerações lógicas, mas também exije considerações éticas e estéticas. Não deve surpreender, portanto, que Peirce passe cada vez mais a colocar a ética e estética como ciências normativas responsáveis, juntamente com a lógica, por controlar a conduta humana. O método pragmatista de análise das proposições lógicas, ainda por demais assentado sobre a inferência dedutiva dos grafos existenciais, fica limitado – para não dizer diminuído – nessa nova configuração. Isso talvez explique por que, em seu último artigo, escrito em outubro de 1913 e poucos meses antes de sua morte, Peirce demonstrava insegurança sobre a validade de seu método. Seu método talvez estivesse preso demais na segurança da dedução enquanto menosprezava a criatividade (ou “uberdade”) abdutiva (EP2, p. 463 e ss).</p>
<p>A semiótica, porém, não sofre dessa limitação e se espraia livremente por todas as dimensões da realidade. Ao buscar na teoria dos signos uma prova definitiva do pragmaticismo, Peirce acabou levando sua semiótica ao patamar máximo da transdisciplinaridade, capaz de rivalizar com a própria matemática como a ciência dos primeiros princípios. Se o universo é feito de signos, como Peirce sustentou na fase final de suas pesquisas, então uma teoria unificada da realidade, se um dia for possível concebê-la, deverá ser necessariamente semiótica (Esposito, L2).</p>
<hr size="1" /><a href="http://www.minutesemeiotic.org/#_ednref1">[1]</a> A posição de Short não é, porém, unanimemente aceita. Veja em Liszka (1996, pp. 120-123) uma discussão sobre esse problema e visões alternativas à de Short.</p>
<p><a href="http://www.minutesemeiotic.org/#_ednref2">[2]</a> &#8230;these signs are the very thing. Reals are signs. To try to peel off signs &amp; get down to the real thing is like trying to peel an onion and get down to [the] onion itself, . . . If not consciousness then sciousness, is the very being of things; and consciousness is their co-being. . . .></p>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:25:38 +0000</pubDate>
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<h3 id="toc-a-navalha-de-peirce">A navalha de Peirce</h3>
<p>Nossos primeiros passos no caminho da solução do enigma das classes de signos, ainda na antecâmara do labirinto, atravessam a fenomenologia ou, no termo inventado por Peirce, a faneroscopia. Em CP. 1.286, ele a define como:</p>
<blockquote><p><em>aquele estudo que, apoiado pela observação direta dos fânerons e generalizando suas observações, sinaliza diversas e muito amplas classes de fânerons; descreve as características de cada; mostra que embora elas estejam tão inextricavelmente misturadas que nenhuma pode ser isolada da outra, todavia é manifesto que suas naturezas são bem diferentes; então prova, além de qualquer dúvida, que uma certa lista bastante curta engloba todas essas amplas categorias de fânerons que elas consistem; e finalmente procede a difícil e trabalhosa tarefa de enumerar as principais subdivisões daquelas categorias</em></p></blockquote>
<p>Peirce começa essa tarefa levando em conta as duas listas de categorias mais influentes da história da filosofia até então: a de Aristóteles, com sua tábua de dez predicados, e a de Kant, que enumerou dose categorias básicas. Peirce notou, porém, que essas duas listas ressoam um padrão interno: elas sempre sugeriam ramificações triádicas entre seus elementos. Esse <em>insight</em>, relacionado provavelmente aos três estágios do pensamento de Hegel (tese, antítese e síntese), foi suficiente para que ele desenvolvesse sua lista fundamental de categorias, que no artigo <em>Nova Lista</em> são chamadas de qualidade, relação e representação. Na imagem abaixo, apresentamos a primeira lista de categorias de Peirce num esquema triangular que nos permite visualizar melhor as relações entre elas.</p>
<p><img class="size-full wp-image-199 alignnone" title="esquema_triangular" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/esquema_triangular.jpg" alt="esquema_triangular" width="334" height="287" /></p>
<p>Peirce tentou outras palavras para tentar resumir o significado de suas categorias, mas mantinha-se insatisfeito porque nenhuma palavra corrente era capaz de capturar o significado dessas dategorias. Ao contrário, a escolha de termos da língua comum ou pinçados do grego ou latim apenas aumentava a confusão, pois estavam carregados de significados que pouco tinham a ver com os que ele desejava exprimir. Para evitar contaminar suas três categorias com o ranço acumulado pelos termos filosóficos, Peirce recorreu à matemática. Decidiu chamá-las de primeiridade, segundidade e terceiridade e, ao longo de sua vida, dedicou muitos esforços para provar que eram realmente universais, completas e irredutíveis (CP 8.328; 6.342-343).</p>
<h3 id="toc-as-categorias-e-suas-degeneracoes">As categorias e suas degenerações</h3>
<p>A primeira formulação das categorias surgiu sob a égide de seu nominalismo juvenil. Quando Peirce iniciou seu caminho em direção ao realismo, sentiu a necessidade  de revisá-las. A revisão se efetivou em 1885, no artigo “Um, Dois, Três: categorias Fundamentais do Pensamento e da Natureza”. Nele, Peirce apresenta suas categorias não  mais sob a perspectiva da representação e da tradicional lógica do sujeito-predicado, mas do ponto de vista da lógica das relações (Murphey, 1993, p.303).  O resultado dessas pesquisas desembocou, em 1903, na terceira conferência que deu em Harvard em abril de 1903, “As categorias Continuadas”, quando Peirce introduziu conceito de degeneração das relações. Ele convenceu-se de as categorias mais complexas (segundidade e terceiridade) podiam sofrer o que chamou degeneração: uma redução de seu estado ontológico. Assim, enquanto a primeiridade não pode sofrer degeneração, a segundidade pode se degenerar em direção à primeiridade e a terceiridade pode sofrer duas degenerações, aproximando-se inicialmente de uma segundidade e, numa subseqüente degeneração, de uma primeiridade. Quando não-degeneradas, as categorias são chamadas “genuínas” (CP 5.66)</p>
<p>Na quarta conferência em Harvard, “Os Sete Sistemas da Metafísica”, Peirce apresentou o diagrama abaixo, mostrando as possíveis maneiras de combinar a aceitação das categorias e como cada combinação origina um sistema filosófico diferente. Nesta figura desenhada por Peirce, cada categoria é representada por um número correspondente de traços (cf. EP:180):</p>
<h3 id="toc-das-categorias-aos-predicamentos">Das categorias aos predicamentos</h3>
<p>Numa versão um pouco modificada do diagrama original de Peirce, é possível notar com maior clareza como as categorias e suas degenerações se posicionam em relação às demais. Criamos uma notação específica para facilitar sua visualização, usando um</p>
<p>apóstrofe (’) para indicar um grau de degeneração e dois apóstrofes (”) para indicar dois graus de degeneração. As três categorias fundamentais ocupam o hexágono central da figura, mas sua expansão (por meio das degenerações) intercala entre elas os estágios degenerados, como pode ser observado na figura abaixo:</p>
<p><img class="size-full wp-image-201 alignnone" title="new-diagram-categories" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/new-diagram-categories1.jpg" alt="new-diagram-categories" width="334" height="287" /></p>
<p>A parte mais externa corresponde, portanto, às três categorias cenopitagóricas como realmente aparecem no <em>Fâneron</em>. Mantendo o termo categorias para os elementos da parte interior, vamos chamar de <strong>predicamentos</strong> aqueles da parte mais exterior. Os predicamentos são, portanto, remas ou predicados que representam as categorias fundamentais para uma mente interpretante. Por mente queremos dizer não apenas mentes humanas ou mesmo vivas, mas na acepção peirceana de que todo o Universo é mente.Vamos, a seguir,  analisar rapidamente o significado de cada um desses seis predicamentos fundamentais:</p>
<p><strong>(1) Primeiridade</strong></p>
<p>Corresponde a tudo aquilo que é imediatamente positivo em si mesmo, sem nenhuma  relação ou necessidade de representação. São as qualidades puras (enquanto elas próprias e não enquanto representadas na mente). A primeiridade pura está presente em todas as coisas, pois é a fonte primitiva, necessariamente incorporada, em tudo o que existe ou se distribui. Ela é indefinida, fresca, original, espontânea, livre e vívida (Murphey, <em>op. cit</em>, p.303).</p>
<p><strong>(1’) Primeiridade da segundidade</strong></p>
<p>Corresponde à existência de algo em si mesmo, sentimento de <strong>alteridade</strong> que invade uma mente. Como existência pura, é mera flutuação, instabilidade e irritação. Na Cosmologia de  Peirce, esse Predicamento pode ser relacionado ao estado de puro caos, o <em>tohu bohu</em> ou caos primevo descrito no Gênesis bíblico, em que a existência espouca em flashes por puro acaso, sem qualquer relação ou permanência no tempo. Essa é a idéia central do Tiquismo, a doutrina que a afirma a realidade do acaso (CP 6.322).</p>
<p><strong>(2) Segundidade</strong></p>
<p>É qualquer experiência irracional do mundo, em que um objeto se apresenta de maneira pungente, sem considerar nossa vontade ou expectativa. É puro choque (o “outward clash”, cf. CP 8.4), um “isto” sem qualificação, pura individualidade. A segundidade pura envolve sempre resistência, reação, força bruta, compulsão, interrupção, intrusão (Murphey, op.cit, p.310). Em 1885, Peirce encontrou sua melhor definição se segundidade genuína na filosofia escolástica de Duns Scotus, que define a <em>Haeceitas</em> como um “aqui e agora” (<em>hic et nunc</em>) da experiência, um ponto ou instante isolado, pura descontinuidade.</p>
<p><strong>(1”) Primeiridade da terceiridade</strong></p>
<p>A primeiridade da terceiridade corresponde ao “sabor ou cor da mediação”, ou os aspectos mentalísticos primitivos que permeiam o universo (CP 1.533; CP 6.301). A primeiridade da terceiridade corresponderia ao estado de máxima entropia de um sistema. (cf. Prigogine, 1996, p. 68).  Parece corresponder, também, aos sutis laços de mediação da doutrina do Sinequismo (CP 5.4), em que elementos idealistas relacionais produzem o contínuo que permeia todo o universo. Esse contínuo, no entanto, não é o de Cantor, mas um contínuo com as propriedades que Peirce chama de kanticidade (há sempre um ponto entre dois pontos de uma série) e aristotelicidade (a totalidade da multitude está sempre contida em qualquer de suas infinitas possíveis divisões) (cf. CP 6.122;  NEM 4:343). Propomos chamar a primeiridade da terceiridade de <em><strong>Holicidade</strong></em>.</p>
<p><strong>(2’) Segundidade da terceiridade</strong></p>
<p>Corresponde a tudo, fato ou objeto, que ocupa uma porção do espaço e que permanece no tempo. Pode ser uma instanciação de uma lei geral, um caso, um exemplo, uma amostra, uma ocorrência (réplica) de um tipo qualquer, um particular de uma classe. É toda aplicação concreta de uma regra, uma ação que repete um hábito arraigado.</p>
<p><strong>(3) Terceiridade</strong></p>
<p>Abrange as idéias de representação, mediação, ordem, generalidade, lei, hábito, necessidade e inteligência. Corresponde ao tipo, à classe geral das coisas, ao que é universal. A partir de 1907, porém, a terceiridade passou a envolver o componente teleológico da Metafísica madura de Peirce (Short, 2004, p.16). Ela começou a ser entendida principalmente como hábito no condicional futuro, aquilo que “seria” (<em>would be</em>) caso determinadas condições se apresentassem. As leis da natureza, essencialmente probabilísticas, tornaram-se manifestações de uma tendência geral do universo a se desenvolver incorporando novos hábitos. A terceiridade torna-se, então, uma lei de probabilidade (CP 6.91), cuja expressão maior, seu interpretante último, seria uma superordem ou um super-hábito regulando a evolução do universo (CP 6.490).</p>
<h3 id="toc-os-predicamentos-universais">Os predicamentos universais</h3>
<p>Vamos propor aqui que as categorias e suas degenerações podem ser arranjadas numa nova tabela de propriedades ontológicas fundamentais, como faremos abaixo. Em nossa opinião, as degenerações categoriais sugeridas por Peirce não são fenômenos marginais nem refinações caprichosas de sua metafísica. Ao contrário, elas revelam o que passaremos a chamar “predicamentos universais”, que organizamos assim:</p>
<p><img class="size-full wp-image-202 alignnone" title="predicamentos_universais" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/predicamentos_universais.jpg" alt="predicamentos_universais" width="748" height="474" />As flechas que vão de 1 a 2 e, em seguida, de 2 a 3, significam <strong>implicação material</strong> ou <strong>ilação</strong> de um predicado no outro (CP 2.592). É este movimento implicativo que produz a regra mais fundamental da lógica, o princípio-guia que Aristóteles chamou <strong>nota notae</strong>, do latim <em>“nota notae est nota rei ipsius”</em> ou “o predicado de um predicado é também o predicado do objeto do primeiro predicado” (Lizska, 1996, p. 58). Peirce usou vários símbolos para expressar a relação lógica, mas o que lhe pareceu mais adequado foi “-&lt;“, certamente porque possui um significado de desigualdade que pode ser relacionado ao tratamento numérico (1,2,3) que estava dando às suas categorias.</p>
<p>A flecha que vai de 1 a 2, tomada separadamente, significa <em><strong>envolvimento</strong></em>, de forma que podemos afirmar, aplicando o princípio <em><strong>nota notae</strong></em>, que:</p>
<p style="padding-left: 30px;">1) a qualidade está envolvida na espontaneidade<br />
2) a espontaneidade está envolvida na individualidade<br />
3) a qualidade está envolvida na individualidade</p>
<p>A inversão da direção dessa flecha produz <em><strong>dissolução</strong></em>.<br />
A flecha que vai de 2 a 3, tomada separadamente, significa <em><strong>abstração</strong></em>, de forma que podemos afirmar, novamente aplicando o princípio <em><strong>nota notae</strong></em>, que:</p>
<p style="padding-left: 30px;">1) a particularidade é uma abstração da individualidade<br />
2) a generalidade é uma abstração da particularidade<br />
3) a generalidade é uma abstração da individualidade.</p>
<p>A inversão da direção dessa flecha produz <em><strong>instanciação</strong></em>.</p>
<p>Os movimentos de 1 a 3 descritos pelas flechas fazem com que a semiose se desenvolva, de maneira que um estado em que há pouca variedade de coisas e propriedades se transforma continuamente num estado de muitas coisas e muitas propriedades, gerando aumento de Informação.  De fato, em 1893 Peirce afirma que:</p>
<blockquote><p><em>Análogo ao aumento de informação em nós, existe um fenômeno da natureza – desenvolvimento – pelo qual uma multitude de coisas vem a ter uma multitude de características, as quais haviam estado envolvidas em poucas características de poucas coisas</em> (CP 2.419)</p></blockquote>
<h3 id="toc-incerteza-nos-predicamentos">Incerteza nos predicamentos</h3>
<p>A análise do diagrama das relações entre os predicamentos universais revela que há, além da clara tendência geral ao aumento da informação, um princípio de incerteza entre pares conjugados de predicamentos, aqui expresso algebricamente pelo sinal de<br />
multiplicação. Segundo esse princípio, num estado qualquer de informação, haverá sempre um emaranhamento entre pares de predicamentos opostos, de forma que jamais possamos destilá-los até sua pureza. A correlação se dá como esclarece a tabela abaixo:</p>
<p><img class="size-full wp-image-203 alignnone" title="correspondentes" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/correspondentes.jpg" alt="correspondentes" width="550" height="172" /></p>
<p>As relações acima podem ser mais bem representadas na seguinte figura:</p>
<p><img class="size-full wp-image-204 alignnone" title="circle" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/circle1.jpg" alt="circle" width="379" height="250" /></p>
<p>Vamos explorar um pouco mais o significado desse princípio:</p>
<h2 id="toc-a-qualidade-x-particularidade">a) Qualidade x Particularidade</h2>
<p>A Qualidade é pura intensidade e originalidade, mas essas características vão-se esmaecendo quando ela aparece replicada. Por outro lado, um Particular é uma replicação de um modelo, e variações qualitativas atrapalham sua almejada fidelidade à norma. A estratégia qualitativa é usada, por exemplo, por um artista pintor, enquanto a estratégia replicativa é usada pelo gráfico responsável por reproduzir a imagem feita pelo artista. Para o primeiro, a perda de originalidade diminui o valor de sua obra enquanto que, para o segundo, a ocorrência de originalidade nas cópias é considerada erro a ser eliminado. Desde Benjamin (1980), as relações entre qualidade e particularidade têm sido discutidas nas obras de arte submetidas a processos de replicação tecnológica, que tendem a consumir, até certo ponto, sua “aura” qualitativa e original.</p>
<h2 id="toc-b-caos-x-ordem">b) Caos X Ordem</h2>
<p>Caos e ordem estão intimamente relacionados (Prigogine, 1996), assim como suas derivações na forma de espontaneidade x necessidade, irritação x hábito. Embora haja um movimento teleológico conduzindo a realidade ao fortalecimento da lei e à cristalização do hábito, o princípio da incerteza  afirma que, num mesmo estado de informação, caos e ordem se apresentam em matizes variados, mas sem nunca permitir que um elimine completamente o outro. Não há leis tão rígidas que não possam sofrer exceções, nem há um caos tão absoluto que não contenha em seu interior uma semente de ordem.</p>
<h2 id="toc-c-individualidade-x-continuidade">c) Individualidade X Continuidade</h2>
<p>Um individual só pode existir como uma fratura do contínuo, enquanto o contínuo só existe na dissolução de todo individual. Por isso, um depende do outro. Na realidade, eles co-existem de forma que todo individual tem limites idealizados e todo contínuo pode ser reunido numa entidade individual (cf. CP 4.172). O Princípio de Incerteza de Heisenberg e suas derivações do tipo partícula x onda, localidade x não-localidade, universo discreto x universo holográfico parecem nascer dessa correlação.</p>
<h3 id="toc-uma-pitada-de-vagueza">Uma pitada de vagueza</h3>
<p>A categoriologia, com seus predicamentos e relações de incerteza formam o substrato contínuo que permite a ação no processo da Semiose que, portanto, também deve ser considerada como um fenômeno contínuo e sujeito a relações de incerteza, embora também divisível em classes gerais capazes de agrupar os signos de acordo com suas características mais marcantes. Como afirma Mihai Nadin (1983, p. 163 apud Santaella e Nöth, 2004, p. 258).</p>
<blockquote><p><em>a tipologia das classificações dos signos (as 10, 28 e 66 classes), tal como foram confirmadas pela teoria matemática das categorias, deve ser entendida com uma rede de pontos de referência fundamentais num campo semiótico generalizado. Quando essa tipologia é transformada num fim em si mesma, ela conduz estritamente a uma semiótica formalista. Dar um nome a um signo, identificá-lo, não resolve o problema do modo como ele age semioticamente. O signo só pode ser concebido e interpretado dentro do espectro da lógica da incerteza com a participação da doutrina do continuum. As categorias fuzzy e a extensão do conceito matemático das categorias preenchem essa necessidade e aperfeiçoam a tabela dos signos por meio da imagem do continuum e, conseqüentemente, da dinâmica dos processos sígnicos.</em></p></blockquote>
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		<title>Três Correlatos</title>
		<link>http://www.minutesemeiotic.org/?p=35</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:24:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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<h3 id="toc-a-semiotica-dos-tres-correlatos">A Semiótica dos Três Correlatos</h3>
<p>A categorias e suas degenerações, aplicadas à lógica, permitiram a Peirce construir seu primeiro sistema classificatório sobre três correlatos,<br />
impressas no Syllabus destinado à platéia das palestras que deu no Instituto Lowell, em 1903.</p>
<p>Entre 1902 e 1903, no período em que intensificou seus estudos sobre a percepção, Peirce entendeu que uma descrição completa do signo deveria levar em conta não só seus aspectos representativos e interpretativos, também os aspectos materiais, ou presentativos. Alguma coisa só é um signo porque é interpretada como tal por algo ou alguém. É esta dimensão presentativa que, somando-se às outras duas, formarão os três correlatos da classificação 3-tricotômica (baseada em três tricotomias):</p>
<p>A relação entre esses três correlatos pode ser representada com um símbolo de ilação encadeando os três correlatos: PC -&lt; SC -&lt; TC.</p>
<h3 id="toc-a-tabela-das-dez-classes-de-signos">A tabela das dez classes de signos</h3>
<p>O cruzamento das três categorias ontológicas (primeiridade, segundidade e terceiridade), com três correlatos do signo (PC, SC e TC), produz a seguinte Tabela de signos (a terminologia que adotamos é a mesma usada por Peirce em 1903):</p>
<table border="0" cellpadding="3" width="540">
<tbody>
<tr>
<th width="112" scope="col">Categorias</th>
<th width="121" scope="col">Primeiro Correlato (S)</th>
<th width="141" scope="col">Segundo Correlato (S-OD)</th>
<th width="148" scope="col">Terceiro Correlato (S-OD-I)</th>
</tr>
<tr>
<th scope="row">Primeiridade (1)</th>
<td>Qualisigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<th scope="row">Segundidade (2)</th>
<td>Sinsigno</td>
<td>Índice</td>
<td>Dicisigno</td>
</tr>
<tr>
<th scope="row">Terceiridade (3)</th>
<td>Legisigno</td>
<td>Símbolo</td>
<td>Argumento</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A partir dessa lista dos signos genuínos (ou seja, constituídos sem degenerações ontológicas), podemos relacionar os três correlatos por meio de uma regra de <strong>implicação material</strong> que é uma decorrência natural da que discutimos quando vimos os predicamentos.</p>
<p>Aplicada aos correlatos, temos que o primeiro determina os demais, e o segundo determina apenas o terceiro. Ela pode ser representada com umo símbolo de ilação encadeando os três correlatos: <strong>PC -&lt; SC -&lt; TC</strong></p>
<p>Pelo princípio do <em><strong>nota notae</strong></em>, o terceiro correlato pode ser uma qualidade em qualquer situação, pois este Predicamento está sempre presente nos três correlatos, seja na sua forma pura ou implicado na existência ou na lei. No entanto, o terceiro correlato pode ser um Existente apenas se os dois outros forem <strong>pelo menos</strong> existentes. E pode ser uma lei apenas se os dois outros forem <strong>necessariamente</strong> também leis. Restrições semelhantes devem ser feitas na relação entre Primeio e segundo correlato.</p>
<p>Ao aplicarmos essa para explorar as possíveis relações entre os signos genuínos, temos a formação de dez classes de signos genuínos:</p>
<table border="1" cellpadding="5" width="540">
<tbody>
<tr>
<th width="176" scope="col">PC</th>
<th width="183" scope="col">SC</th>
<th width="159" scope="col">TC</th>
</tr>
<tr>
<td>Qualisigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Sinsigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Sinsigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Sinsigno</td>
<td>Índice</td>
<td>Dicisigno</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Índice</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Índice</td>
<td>Dicisigno</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Símbolo</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Símbolo</td>
<td>Dicisigno</td>
</tr>
<tr>
<td>Legisigno</td>
<td>Símbolo</td>
<td>Argumento</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>As classes de signos genuínas podem ser arranjadas triangularmente para formar a <a title="Tabela das Dez Classes de Signos Genuínos" href="http://www.minutesemeiotic.org/genuine.php?id=2">famosa representação que Peirce fez delas no Syllabus</a>.</p>
<p>As flechas que vão de 1 a 2 e de 2 a 3 cumprem a mesma função que vimos na discussão sobre os predicamentos: envolvimento e abstração quando o movimento é crescente; e instanciação e dissolução quando o movimento é inverso.</p>
<h3 id="toc-a-degeneracao-dos-tipos-de-signos">A degeneração dos tipos de signos</h3>
<p>Da mesma maneira que fizemos ao derivar os seis predicamentos universais a partir das três categorias, vamos aplicar a notação de um apóstrofo (‘) para indicar um grau de degeneração, e dois apóstrofos (“) para indicar dupla degeneração. Dessa  forma, uma segundidade genuína pode degenerar-se numa primeiridade da segundidade (1’) e  uma terceiridade genuína pode degenerar-se numa segundidade da terceiridade (2’), ou numa primeiridade da terceiridade (1”).</p>
<p>Na tabela abaixo, apresento os signos genuínos e suas possíveis degenerações ontológicas, da maneira como as concebo.</p>
<table border="1" cellpadding="5" width="630">
<tbody>
<tr>
<th scope="col">Categorias</th>
<th colspan="3" scope="col">Corretatos</th>
</tr>
<tr>
<td></td>
<td><strong>Primeiro Correlato</strong></td>
<td><strong>Segundo Correlato</strong></td>
<td><strong>Terceiro Correlato</strong></td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Primeiridade (1)</strong></td>
<td>Qualisigno</td>
<td>Ícone</td>
<td>Rema</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Primeiridade</strong><strong> da Segundidade (1’)</strong></td>
<td>Altersigno</td>
<td>Eidosema</td>
<td>Sintaxe</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Segundidade</strong><strong> (2)</strong></td>
<td>Sinsigno</td>
<td>Índice</td>
<td>Dicisigno</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Primeiridade</strong><strong> da Terceiridade (1”)</strong></td>
<td>Holosigno</td>
<td>Metáfora</td>
<td>Abdução</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Segundidade</strong><strong> </strong><strong>da Terceiridade</strong><strong> (2’)</strong></td>
<td>Réplica</td>
<td>Metonímia</td>
<td>Indução</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Terceiridade</strong><strong> (3)</strong></td>
<td>Legisigno</td>
<td>Símbolo</td>
<td>Argumento</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Alguns dos termos acima, como sintaxe, metáfora e eidosema foram criados ou discutidos por Peirce em seus artigos e manuscritos. Nesse caso, minha preocupação foi procurar respeitar o significado pretendido por Peirce, embora aproveitando-o em favor do quadro teórico que estou montando. A metonímia tem um significado já estabelecido na semiótica e na teoria da linguagem, fazendo um par com metáfora que julguei interessante e promissor para entender as relações entre semiótica e as ciências cognitivas em geral. Altersigno e holosigno  são introduções minhas, que, no entanto, fiz procurando respeitar a regra de composição adotada por Peirce ao inventar qualisigno, sinsigno e legisigno, em que o prefixo denota a propriedade principal do signo.</p>
<h3 id="toc-a-tabela-periodica-das-66-classes-de-signos">A Tabela Periódica das 66 Classes de Signos</h3>
<div>
<p>Se aplicarmos o princípio de implicação material entre os correlatos (1C-&lt;2C-&lt;3C) levando em consideração os tipos de signos genuínos e degenerados que descrevemos acima, obtemos como resultado as 66 classes de signos.</p></div>
<div>
<p>Em nosso <a href="http://www.minutesemeiotic.org/wheel.php?id=2">Disco Semiótico</a>, cruzamos a Teoria das Cores de Goethe com a Teoria das Categorias de Peirce para construir um disco móvel onde as classes de signos aparecem como consequência direta da lógica de implicação descrita acima.</div>
<div>
<p>Essas 66 classes de signos podem ser arranjadas numa figura triangular que preserva as mesmas relações de envolvimento e generalização presentes nas 10 classes de signos. Na verdade, o triângulo das 66 classes de signos é claramente uma expansão a partir do triângulo de 10 classes apresentado por Peirce no Syllabus. De fato, os signos genuínos aparecem distribuídos na figura triangular das 66 classes mantendo as mesmas relações que têm entre si no triângulo de 10 classes. Os 12 vazios, representados na figura por buracos escuros, aparecem devido a uma necessidade matemática: uma terceiridade pode se degerar duas vezes, uma segundidade apenas uma, e uma primeiridade não se degenera. No arranjo das 66 classes, isso produz uma distorção na figura, na medida em que cada categoria ocupa um dos vértices do triângulo.</p></div>
<div>
<p>O mesmo fenômeno pode ser observado na geometria cartesiana. Mapistas devem enfrentá-lo quando precisam representar a superfície da Terra (um objeto tridimensional), numa superficie de papel bidimensional: eles devem escolher entre distorcer a representação dos territórios nas proximidades dos pólos ou, então, deixar espaços livres como fizemos.</p></div>
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		<title>Aspectos do Signo</title>
		<link>http://www.minutesemeiotic.org/?p=34</link>
		<comments>http://www.minutesemeiotic.org/?p=34#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:23:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[
<h3 id="toc-o-leque-das-onze-dobras">O leque das onze dobras</h3>
<p>Peirce nunca declarou que relação imaginava haver entre a tipologia e classificação 3-tricotômica publicada no Syllabus, em 1903, e as tentativas posteriores baseadas em dez tricotomias. Alguns comentadores afirmam que a classificação 10-tricotômica suplantou a anterior, que então deve ser descartada como provisória. Outros sugerem que duas classificações podem ter uma relação ilativa, ou seja, a 10-tricotômica é um desenvolvimento e detalhamento da 3-tricotômica, que permanece válida como uma classificação que pode ter muita utilidade na aplicação, principalmente quando for o caso de aplicar a semiótica na análise dos fenômenos.</p>
<p>Nossa opinião é a de que a introdução de dez tricotomias abriu o leque dos três correlatos para mostrar sua constituição minuta, ou os caracteres essenciais constitutivos das classes de signos. De fato, a classificação com base nos três correlatos parece ser mais grosseira, enquanto a das dez tricotomias apresenta uma granulação mais fina. Talvez seja por isso que a idéia de degeneração e seus conceitos associados, como os hipoícones, hiposemas e subíndices, tratados com alguma importância até 1903, desaparecem depois de 1905, tornados desnecessários com as distinções possibilitadas pelas novas tricotomias.</p>
<p>A proposta de classificação dos signos que faremos a seguir baseia-se na distinção de <strong>onze</strong> caracteres essenciais, no seu ordenamento de acordo com uma regra de implicação material, na sua divisão em tricotomias conforme a faneroscopia e, finalmente, no que acreditamos seja o movimento dinâmico que anima a semiose. Nosso ponto de partida é a lista das dez tricotomias apresentadas por Peirce em seus manuscritos e, principalmente, na sua correspondência com Lady Welby (CP 8.342 e ss; EP2: 477-491)<br />
Há muitas semelhanças entre nossa proposta e a de Peirce, mas também há diferenças importantes. Embora seja possível superpor algumas das partes de ambas, a introdução da 11a tricotomia impede que haja entre elas uma correspondência ponto a ponto. Também devemos lembrar que Peirce não explicou várias de suas tricotomias, o que torna ainda mais difícil a comparação. Optamos, portanto, por fazer uma análise das 11 tricotomias respeitando a lógica interna de nosso sistema.</p>
<h3 id="toc-a-expansao-das-tricotomias">A expansão das tricotomias</h3>
<p>A partir de 1905, Peirce viu a necessidade de expandir sua semiótica para dar conta dos resultados que havia obtido nos estudos como a percepção e, também, para tentar extrair da semiótica a sua almejada prova do pragmatismo. Seus estudos o levaram a distinguir entre dois tipos de objetos: o <strong>dinâmico</strong>, que é o objeto que determina o signo e que permanece sempre fora da semiose; e o <strong>imediato</strong>, que é o objeto representado no interior do signo.</p>
<p>Peirce também passou a distinguir três tipos de interpretantes, chamados por ele, na maior parte das vezes, de imediato, dinâmico e final (CP 4.536). Na verdade, essa terminologia variou bastante entre 1905 e 1908, período em que dedicou particular atenção à divisão entre os interpretantes do signo, provavelmente influenciado, como vimos, pela correspondência com Lady Welby. Ao todo, portanto, a semiótica de Peirce passou a contar seis tricotomias elementares do signo, que podem ser esquematizadas assim:</p>
<p>1) signo (S)</p>
<p>2.1) objeto imediato (OI)<br />
2.2) objeto dinâmico (OD)</p>
<p>3.1) interpretante imediato (II)<br />
3.2) interpretante dinâmico (ID)<br />
3.3) interpretante final (IF)</p>
<h3 id="toc-as-dez-tricotomias-de-peirce">As dez tricotomias de Peirce</h3>
<p>Nas cartas enviadas a Welby em 1908, Peirce trabalhava com a hipótese de que o signo podia ser analisado em dez tricotomias. Elas surgiriam a partir de dez aspectos (CP 8.344 apud Santaella, 2000, p. 93), que ele elencou desta forma:</p>
<blockquote><p><em>1. de acordo com o Modo de Apreensão do próprio signo<br />
2. de acordo com o Modo de Apresentação do objeto imediato<br />
3. de acordo com o Modo de Ser do objeto dinâmico<br />
4. de acordo com a Relação do signo com seu objeto dinâmico<br />
5. de acordo com o Modo de Apresentação do interpretante imediato<br />
6. de acordo com o Modo de Ser do interpretante dinâmico<br />
7. de acordo com a Relação do signo com o interpretante dinâmico<br />
8. de acordo com a Natureza do interpretante Normal<br />
9. de acordo com a Relação do signo com o interpretante Normal<br />
10. de acordo com a Relação Triádica do signo com seu objeto</em></p></blockquote>
<p>O resultado da tricotomização desses aspectos, incluindo os nomes que Peirce sugeriu para cada uma das divisões internas das tricotomias, pode ser sistematizado na forma de uma tabela, como fez Queiroz (2004, p. 101):</p>
<table border="1" cellpadding="5" width="580">
<tbody>
<tr>
<td width="176">1º, de acordo com o modo de apreensão do signo, ele próprio</td>
<td width="163">signo ele próprio</td>
<td width="23">S</td>
<td width="174">1.qualisigno (tone, mark, potisign)<br />
2.sinsigno (token, actisign, replica)<br />
3.legisigno (type, famisign)</td>
</tr>
<tr>
<td>2º, de acordo com o modo de apresentação do objeto imediato</td>
<td>objeto imediato (degenerado)</td>
<td>OI</td>
<td>1.descritivo<br />
2.denominativo (designativo)<br />
3.distributivo (copulativo, copulante)</td>
</tr>
<tr>
<td>3º, de acordo com o modo de ser do objeto dinâmico</td>
<td>objeto dinâmico (externo, dinâmico, dynamoid)</td>
<td>OD</td>
<td>1.abstrativo (possíveis)<br />
2.concretivo (ocorrências)<br />
3.coletivos (coleções)</td>
</tr>
<tr>
<td>4º, de acordo com a relação do signo com seu objeto dinâmico</td>
<td>relação do signo com o objeto dinâmico</td>
<td>S-OD</td>
<td>1.ícone<br />
2.índice<br />
3.símbolo</td>
</tr>
<tr>
<td>5º, de acordo com o modo de apresentação do interpretante imediato</td>
<td>interpretante imediato (felt, duplamente degenerado, destinate, emocional)</td>
<td>II</td>
<td>1.hipotético (ejaculativo)<br />
2.categórico (singular, imperativo)<br />
3.relativo (significativo)</td>
</tr>
<tr>
<td>6º, de acordo com o modo de ser do interpretante dinâmico</td>
<td>interpretante dinâmico (singularmente degenerado, efetivo, energético)</td>
<td>ID</td>
<td>1.simpatético (congruentive)<br />
2.percursivo<br />
3.usual</td>
</tr>
<tr>
<td>7º, de acordo com a relação do signo com o interpretante dinâmico</td>
<td>relação do signo com o interpretante dinâmico (maneira de apelação ao interpretante dinâmico)</td>
<td>S-ID</td>
<td>1.sugestivo (ejaculatum)<br />
2.imperativo (interrogativo)<br />
3.indicativo (cognificativo)</td>
</tr>
<tr>
<td>8º, de acordo com a natureza do interpretante normal</td>
<td>interpretante final (explícito, lógico, logical, normal, eventual)</td>
<td>IF</td>
<td>1.gratífico<br />
2.practical (produzir ação)<br />
3.pragmatístico (produzir autocontrole)</td>
</tr>
<tr>
<td>9º, de acordo com a relação do signo com o interpretante Normal</td>
<td>ralação do signo como interpretante normal (natureza da influência do signo)</td>
<td>S-IF</td>
<td>1.rema (sema, termo, sumisigno)<br />
2.signo dicente (fema, proposição)<br />
3.argumento (deloma, suadisign)</td>
</tr>
<tr>
<td>10º, de acordo com a relação triádica do signo com o objeto dinâmico para o interpretante Normal</td>
<td>relação triádica do signo com o objeto dinâmico para o interpretante final (natureza da garantia da declaração, relação do interpretante lógico ou final com o objeto)</td>
<td>S-OD-IG (sic)</td>
<td>1.instintivo (garantia por [de] instinto)<br />
2.experiencial (garantia por [de] experiência)<br />
3.habitual (garantia por [de] forma)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h3 id="toc-a-analise-do-faneron">A análise do fâneron</h3>
<p>O fâneron é a “totalidade” presente numa mente qualquer num dado instante qualquer. É um signo Perfeito, dinâmico, constituído pela relação triádica S-OD-IF. O primeiro trabalho do semioticista, portanto, é o de  “quebrar” essas relações, à maneira que um químico faz com uma substância, para atingir seus elementos e relações constitutivas.Ao aplicarmos as ferramentas analíticas dadas pela fenomenologia, produzimos uma análise das relações que parte da única genuinamente triádicas em direção aos níveis mais degenerados até atingirmos os elementos constitutivos do signo. À representação dessa análise chamaremos de cascata analítica do fâneron:</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-358" title="fâneron" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/faneron1.jpg" alt="fâneron" width="380" height="304" /></p>
<p>Na figura acima, podemos divisar onze tricotomias, e não dez como Peirce insistiu durante toda a fase madura de suas pesquisas. A nova tricotomia é a da relação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico (S-OD-ID) e a questão que naturalmente surge é sobre seu impacto no arranjo das classes de signos e como ela pode nos ajudar a compreender melhor a semiótica, talvez solucionando alguns dos problemas com os quais os semioticistas têm se debatido, como uma diferenciação clara entre Asserção e proposição.</p>
<h2 id="toc-niveis-do-faneron">Níveis do fâneron</h2>
<p>A cascata também nos trás outras informações interessantes, como a presença de quatro níveis ou degraus constitutivos.</p>
<p>Fundamentação (OI, II)<br />
Presentação (S, OD, ID, IF)<br />
Representação (S-OD, S-ID, S-IF)<br />
Comunicação (S-OD-ID, S-OD-IF)</p>
<h2 id="toc-a-inesgotabilidade-da-informacao">A inesgotabilidade da informação</h2>
<p>A diferença entre as flechas contínuas e tracejadas na Cascata Analítica do Fâneron representa uma propriedade fundamental da informação: ela é um condicional futuro cuja força não se esgota nas suas instanciações. Portanto, é importante notar que:<br />
b) As flechas de linhas contínuas representam uma análise da tricotomia em seus níveis mais simples, ou as sucessivas descidas na hierarquia das relações.<br />
c) As flechas de linhas tracejadas representam a presença do continuum, ou da causa final à sua aplicação contingencial.</p>
<p>A presença das linhas tracejadas em cada nível significa que:<br />
c.1) nenhuma multitude finita de interpretantes imediatos (II) pode esgotar a informação Fundamental do signo (S).<br />
c.2) nenhuma multitude finita de efeitos interpretativos (ID) pode esgotar a informação presentativa do interpretante final (IF).<br />
c.3) nenhuma multitude finita de representações efetivadas do signo (S-ID) pode esgotar a informação representativa expressas na relação entre signo e seu interpretante final ( S-IF).<br />
c.4) nenhuma multitude finita de atos comunicativos, ou ilocuções  (S-OD-ID), pode esgotar toda informação comunicativa de uma proposição, Indução ou Argumento (S-OD-IF).</p>
<h2 id="toc-eixos-da-semiose">Eixos da semiose</h2>
<p>A Cascata Analítica também nos permite divisar os três grandes eixos da semiose:</p>
<p><strong>Objetivação</strong> (Ob) OI &#8212;&#8212;&#8211;OD&#8212;&#8212;&#8211;S-OD&#8212;&#8212;&#8212;S-OD-ID&#8212;&#8212;&#8212; S-OD-IF</p>
<p><strong>Interpretação</strong> (In) II&#8212;&#8212;&#8212;-ID&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;S-ID&#8212;&#8212;&#8212;-S-OD-ID</p>
<p><strong>Significação</strong> (Si) S &#8212;&#8212;&#8212;-IF&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;S-IF&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;S-OD-IF</p>
<h2 id="toc-descricao-das-novas-tricotomias">Descrição das novas tricotomias</h2>
<p>Já descrevemos as tricotomias de Fundamentação (OI e II), responsáveis pelo ground e significância, e as Presentativas (S, OD, ID e IF), responsáveis por definir a materialidade do signo “em si mesmo”. Vamos agora descrever as tricotomias Representativas e Comunicativas, formadas por relações diádicas e triádicas estabelecidas entre as tricotomias não-relacionais.</p>
<p>O signo tem a capacidade de relacionar com cada um demais elementos que compõem as classes de signos, com exceção do objeto imediato e do interpretante imediato que lhe são internos. Peirce afirma que, na composição dessas relações, deve-se levar em conta apenas aquelas em que o signo é um membro da relação, excluindo, por exemplo, relações do tipo OD-ID, OD-IF ou ID-IF.</p>
<h3 id="toc-tricotomias-representativas">Tricotomias Representativas</h3>
<p>São as tricotomias que produzem a propriedade representativa do signo: a maneira como ele se relaciona como seu objeto dinâmico, como essa representação é efetivamente interpretada pelo interpretante dinâmico e o como essa representação projeta-se em direção a um ideal representativo expresso na relação entre signo e interpretante final.</p>
<p><strong>Relação do signo com o objeto dinâmico (S-OD)<br />
Relação do signo com o interpretante dinâmico (S-ID)<br />
Relação do signo como interpretante final (S-IF)</strong></p>
<h3 id="toc-tricotomias-comunicativas">Tricotomias Comunicativas</h3>
<p>As tricotomias comunicativas mostram como objeto, signo e interpretante fundem-se numa relação triádica genuína, gerando informação e entendimento  e permitindo o autocontrole do próprio processo de semiose.</p>
<p><strong>(S-OD-ID): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico<br />
(S-OD-IF): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante final </strong></p>
<h2 id="toc-a-regra-do-triangulo-da-existencia">A regra do triângulo da existência</h2>
<p>A tricotomização dos 11 elementos do signo leva à produção de 78 classes. No entanto, nem todas são logicamente possíveis. Doze delas são aberrações lógicas porque não respeitam o que chamaremos de <strong>regra dos triângulos de existência</strong>. Essa regra é necessária para preservar a realidade da segundidade na semiótica. Se o signo for um existente, por exemplo, deve estar conectado materialmente ao objeto imediato ou ao objeto dinâmico. Não se pode ter uma impressão digital, por exemplo, sem que ela esteja conectada materialmente a um dedo existente, nem se pode satisfazer o desejo de comer bolo sem que exista realmente um bolo sendo comido (ou, pelo menos, uma alucinação que garanta uma experiência ficcional de um bolo sendo comido).</p>
<p>A regra dos triângulos de existência tem duas partes:</p>
<p><strong>1)</strong> determina que não pode haver segundidade no eixo da significação sem que haja também em cada um demais eixos. Isso vale para ocorrências de segundidade em todos os elementos do eixo da significação: S, IF, S-IF e S-OD-IF.</p>
<p><strong>2)</strong> estabelece que deve haver um número de triângulos de existência sempre igual ao número de segundidades manifestas no eixo da significação. Portanto:</p>
<blockquote><p><strong>a)</strong> Se no eixo da significação houver existentes em dois períodos, então deverá haver, correspondentemente, dois triângulos de existência ligando os três eixos.<br />
<strong>b)</strong> No caso de S, IF e S-IF serem existentes, então deverá haver, correspondentemente, três triângulos existentes unindo os eixos.</p></blockquote>
<p>Há, ainda, outra observação importante ser feita: a tricotomia S-OD-ID participa tanto do eixo da Objetivação quanto do da Interpretação, de sorte que basta que S-OD-ID seja existente para garantir condições de existência para os dois eixos. Igualmente, a tricotomia S-OD-IF participa dos três eixos, de sorte que a ocorrência de um existente nessa tricotomia automaticamente produz um triângulo de existência sobre o fluxo da semiose.</p>
<h2 id="toc-a-tabela-periodica-das-classes-de-signos">A Tabela Periódica das Classes de Signos</h2>
<p>As 66 classes de signos podem ser arranjadas numa tabela triangular tendo como vértices as categorias cenopitagóricas (primeiridade, segundidade e terceiridade). As janelas pretas ou “buracos” correspondem às classes eliminadas pela regra do triângulo de existência. As flechas correspondem à relação lógica de ilação ou implicação material.<br />
As flechas que vão de 1 a 2, que sabemos indicar envolvimento, aqui também correspondem aos estágios da semiose: Fundamentação, Presentação, Representação e comunicação. Isso significa que a Presentação envolve Fundamentação, que a Representação envolve os dois primeiros e que a comunicação envolve todos os demais.<br />
As flechas que vão de 2 a 3, que sabemos indicar universalização, aqui também correspondem aos quatro períodos ou estágios do conhecimento: Perceptivo, Inquisitivo, Deliberativo e Científico. Isso significa que todo conhecimento começa na percepção, que a deliberação exige ambas percepção e inquisição e que o método científico é uma universalização dos anteriores.</p>
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		<title>Semiose</title>
		<link>http://www.minutesemeiotic.org/?p=30</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:01:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<h3 id="toc-o-solenoide-da-semiose">O Solenóide da Semiose</h3>
<p>Os 11 aspectos do signo distribuídos ao longo dos três eixos da Cascata do Fâneron são ordenados pelo fluxo da informação. A figura abaixo mostra a semiose como um processo dinâmico organizado em hierarquias. Tal fluxo de informação não precisa de componentes estruturais como “energia”, “matéria” ou um “canal”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-364" title="solenoide" src="http://www.minutesemeiotic.org/imagens/solenoide2.jpg" alt="solenoide" width="480" height="383" /></p>
<h3 id="toc-propriedades-gerais-da-semiose">Propriedades gerais da semiose</h3>
<h2 id="toc-semiose-e-sistemas-dinamicos">Semiose e sistemas dinâmicos</h2>
<p>A semiose comporta-se como um sistema dinâmico construído a partir da interação recursiva entre as tricotomias dos eixos de objeto, signo e interpretante. Os três correlatos do signo podem ser considerados os elementos em interação, cada qual com seus atributos e produzindo relações que dão coesão ao sistema como um todo. O grande sistema da semiose pode ser dividido em subsistemas menores. Esse encadeamento de sistemas e subsistemas cria hierarquias dinâmicas (Collier, 1999. p. 111 e 2003, p. 109).</p>
<h2 id="toc-semiose-e-periodicidade">Semiose e periodicidade</h2>
<p>A semiose apresenta como um fluxo periódico. Por periodicidade queremos dizer o fenômeno da repetição de um conjunto de propriedades a intervalos regulares (Scerri, 1998), embora haja aumento de complexidade no todo. Os períodos parecem estar acoplados de forma produzir o que os teóricos dos sistemas chamam de ressonância – uma relação harmônica entre freqüências (dadas pela indução) que se mostram irreversíveis e construtivas, capazes de fazer emergir no sistema novas propriedades.</p>
<h2 id="toc-semiose-e-autopoiesis">Semiose e <em>autopoiesis</em></h2>
<p>A semiose é autopoiética (Maturana e Varela, 1973, p. 78), ou seja, ela se produz a si mesma a partir de uma complementaridade fundamental entre estrutura e função. Talvez seja essa a propriedade do signo perfeito, que lhe permite apresentar-se como enteléquia.</p>
<h2 id="toc-semiose-e-desenvolvimento">Semiose e desenvolvimento</h2>
<p>A semiose é ampliativa, partindo do simples em direção ao variado e complexo, ou seja, ela caminha no sentido do aumento da informação.</p>
<h3 id="toc-periodos-da-semiose">Períodos da semiose</h3>
<p>A semiose tem três períodos completos e um subperíodo aninhado dentro do terceiro. Um período semiósico se inicia com a primeiridade numa tricotomia do eixo da significação e se completa com uma terceiridade na tricotomia desse mesmo eixo, mas num nível acima. Em outras palavras, a presença de terceiridade no eixo da significação sempre marca o fim de um período e início do seguinte.</p>
<p>Há uma boa razão para isso: a criação de um hábito no eixo da significação faz com que todo o período em questão adquira uma certa rigidez, uma certa opacidade. Os períodos transformados em hábitos saem do primeiro plano, onde o dinamismo acontece, para planos inferiores e não imediatamente ativos. Esse é o mecanismo que, por exemplo, envia para o código genético as características selecionadas no processo de evolução biológica, ou que envia para as estruturas inconscientes da mente os hábitos adquiridos pela iteração das experiências (Bateson, 1999). O hábito é o resultado de um processo inferencial de generalização e fixação de hábitos. Veja, por exemplo, o que Peirce diz sobre isso:</p>
<blockquote><p><em>(…) o processo da formação do hábito é um afundamento de conhecimento para níveis menos conscientes e mais arcaicos. O inconsciente contém não só os assuntos dolorosos que a consciência prefere não inspecionar, mas também muitos assuntos que são tão familiares que nós não precisamos inspecioná-los. Hábito, portanto, é uma enorme economia do pensamento consciente. Podemos fazer coisas sem conscientemente pensar sobre elas”  (Idem, pp. 141-142).</em></p></blockquote>
<p>A mesma idéia é reforçada no trecho abaixo:</p>
<blockquote><p><em>“(&#8230;) na evolução mental há (&#8230;) uma economia da flexibilidade. Idéias que sobrevivem a usos repetidos são tratadas de uma forma especial que é diferente da forma na qual a mente trata novas idéias. O fenômeno da formação do hábito classifica as idéias que sobrevivem a usos repetidos e as coloca numa categoria mais ou menos separada. Essas idéias confiáveis então se tornam disponíveis para uso imediato sem inspeção cuidadosa, enquanto as partes mais flexíveis da mente podem ser guardadas para novos usos ou assuntos”  (Idem, p. 509).</em></p></blockquote>
<h3 id="toc-as-fases-da-inquiricao">As fases da Inquirição</h3>
<p>Cada um dos períodos da semiose podem ser relacionados aos quatro níveis do pensamento (cf. Santaella, 2004, p. 81):</p>
<p>Perceptivo<br />
Inquisitivo<br />
Deliberativo<br />
Científico</p>
<h3 id="toc-um-exemplo-o-bebe-esta-chorando">Um exemplo: o bebê está chorando</h3>
<p>Vamos a um exemplo concreto. O primeiro signo que enviamos ao mundo ao nascermos é, quase sempre, um choro. O ato de chorar é um signo repleto de significado. Foi selecionado na evolução de nossa espécie por uma razão importante: ajudar na comunicação entre pais e bebê no longo período de imaturidade que se segue ao nascimento da criança. O ser humano é o primata que leva mais tempo para atingir a maturidade adulta. Por um longo e delicado período, quando a vida do bebê está nas mãos dos pais, comportamentos como o choro e o riso são signos importantes para que o bebê comunique aos pais seu desconforto ou satisfação (Morris, 2003). O choro é um signo que possui, portanto, uma interpretabilidade fundamentada definida no nível da espécie humana.</p>
<h2 id="toc-fundamentacao-e-presentacao">Fundamentação e presentação</h2>
<p>Emprestando a terminologia da Teoria dos Atos da Fala de Austin (apud Marcondes, 2005), o choro é um ato performativo do bebê, ainda que ele não o realize com uma intencionalidade consciente. Sua dimensão locucionária nasce da habituação adquirida na própria evolução de nossa espécie, em que certos comportamentos são gramaticalizados para poder significar. Sua força ilocucionária é óbvia para a mãe da criança, que compreende imediatamente que seu filho está sentindo desconforto e precisa de ajuda. As forças locucionárias e ilocucionárias existem porque o ato de chorar realizado por um bebê recebeu, no processo evolutivo de nossa espécie, um objeto imediato e um interpretante imediato habituais (<em>ground</em> e <em>interpretabilidade fundamentada</em>), que criam no seu entorno uma “aura” de <em>significância</em>.</p>
<p>Essa <em>interpretabilidade fundamentada</em>, por sua vez, confere ao signo-choro a potencialidade de produzir Intepretantes dinâmicos na mente da mãe da criança (embora o desenvolvimento cultural tenha transferido essa interpretabilidade para outras pessoas próximas, como a avó ou a babá). De fato, se a mãe vê seu filho chorar, o “instinto” (ou hábito de interpretação dinâmica) materno a faz especular sobre o motivo do desconforto de seu filho e em maneiras de aliviar seu sofrimento.</p>
<p>Semioticamente, portanto, o choro é um signo, a razão ou causa eficiente do choro (fome? dor?) é seu objeto dinâmico, as conjecturas criadas na mente da mãe na medida em que ela procura representar o objeto dinâmico são os objetos imediatos do signo-choro e as atitudes que ela tomar para interpretar corretamente esse signo são seus interpretantes dinâmicos. O interpretante final do signo é a atitude que a mãe deverá tomar para fazer com seu bebê deixe de sentir o desconforto e que ela deixe de sentir aflição.</p>
<p>O bebê só vai parar de chorar quando o objeto imediato produzido na mente da mãe se conformar com o objeto dinâmico.  Numa primeira tentativa, a mãe dá o peito pensando que ele sente fome, mas o bebê ainda chora. O ato de dar o peito é um interpretante dinâmico que atualiza um possível interpretante imediato. Afinal, faz parte da interpretabilidade do signo “choro”, selecionada evolutivamente, que a criança possa estar com fome. A mãe então verifica a frauda (um outro interpretante dinâmico que atualiza uma outra possibilidade), mas o bebê ainda chora. Noutra tentativa ainda, massageia a barriga da criança, que finalmente pára de chorar.</p>
<p>O choro era provocado por gases. No momento em que o objeto imediato produzido pela mãe (expresso na conjectura “talvez sejam gases”) conformou-se ao objeto dinâmico real do signo “choro” (a dor real causada na criança pelos gases), gerando um interpretante dinâmico energético (a massagem na barriguinha) que, por sua vez, criou um interpretante final emocional: o retorno do bebê e da mãe a um estado original de comunhão tranqüila e feliz – que é, segundo a psicanálise freudiana tradicional, o interpretante final perseguido por todos nós.</p>
<p>Ora, o bebê certamente adorou o carinho de sua mãe em sua barriga, que não só aliviou sua dor devido aos gases como também lhe deu uma informação suplementar: a de que a massagem da mamãe lhe dá prazer. Isso é uma <strong>observação</strong> ou <strong>experiência</strong> <strong>colateral</strong>: o bebê aprendeu algo a mais sobre o mundo. Como já discutimos, essa familiarização deve ser originada na percepção, já que esta é, como já vimos, a única porta de entrada de todo conhecimento novo nas nossas mentes. O papel da experiência colateral é, portanto, o de transformar objetos imediatos de primeiridade e segundidade (os perceptos), em objetos imediatos de terceiridade (<em>percipuua</em> e <em>grounds</em>), criando o fundamento necessário para que o signo possa representar cada vez melhor. É esse mesmo processo que cria os <em>umwelten</em> das espécies, as “bolhas” de signos que as envolve (Uexkull, 1992) à medida que evoluem na relação com o meio ambiente.</p>
<p>De fato, se situações semelhantes ao do choro provocado por gases se repetirem no futuro (e é quase certo que elas se repetirão várias vezes ao dia), não devemos nos admirar se o bebê começar a relacionar o seu ato de chorar com a recompensa do carinho de sua mãe. Graças à sua inteligência inata, o bebê possui a capacidade de relacionar um fato concreto da realidade (o seu ato de chorar) a uma expectativa futura (o hábito de a mãe lhe massagear a barriga quando ele chorar). Essa relação é, como vimos uma <strong>cognição</strong> que traz informação para o interior da mente (CP 1.537), aumentando o conhecimento que o bebê tem do mundo.</p>
<p>Por meio da experiência colateral, o bebê terá aprendido a fazer “manha”, que é um comportamento <strong>perlocucionário</strong> bastante sofisticado, baseado numa intencionalidade capaz de prever experiências futuras baseadas em experiências presentes. Austin define um ato perlocucionário como se caracterizando “pelas conseqüências do ato em relação aos sentimentos, pensamentos e ações da audiência, ou do falante, ou de outras pessoas, e pode ter sido realizado com o objetivo, intenção e propósito de gerar essas conseqüências” (<em>apud</em> Marcondes, op. cit, p. 19). Vê-se, portanto, que todo ato perlocucionário exige a presença de informação da maneira como Peirce a definiu condicionando sua realização. De fato, a informação peirceana é sempre condicional. Vê-se, também, que não é preciso saber falar para realizar um Ato da Fala. Bebês – e até os animais – fazem isso.</p>
<p>Interessa-nos particularmente, na continuação desse exemplo, que a manha do bebê tem início quando o interpretante final do signo-choro não é mais um estado emocional de interrupção do desconforto efetivamente sentido. Agora, o bebê aplica o signo-choro intencionalmente, ele não é mais um Sin-signo, mas uma <strong>réplica</strong> destinada a produzir um interpretante final energético (o carinho da mãe, que é uma ação efetiva). O bebê fará isso algumas vezes antes que o interpretante final se transforme num hábito: a mãe tenderá a inverter a ordem de suas ações de interpretação dinâmica (dar o peito, verificar a frauda etc.) e passará a fazer <strong>primeiro</strong> a massagem na barriguinha do bebê. Nesse ponto, o interpretante final terá se transformado num hábito, numa conduta rotineira da mãe, e o signo-choro terá se transformado, para esta relação mãe-bebê, num legi-signo: um signo convencional ou habitual, que existe para ser usado, aplicado. A manha é sua aplicação.</p>
<h2 id="toc-representacao">Representação</h2>
<p>Sabemos que o objeto do signo-choro-manha é a expectativa do carinho da mamãe – é isso que ele <strong>professa</strong> representar. O sucesso dessa representação depende de cada situação específica em que é usado, ou seja, do caminho da relação S-OD para S-IF. Na primeira vez que fizer sua manha, é possível que não consiga sucesso na comunicação dessa informação. Mas também aqui a repetição da situação tenderá a fazer, no longo prazo, com que a mãe o compreenda por um processo de experiência colateral.</p>
<p>A mãe começa a “sacar” as verdadeiras intenções do bebê por meio de implicaturas comunicativas (cf. Grice), ou abduções que criam hipóteses falíveis e corrigíveis sobre as intenções do bebê. Se ela entrar no jogo de seu filho e lhe conceder o carinho na barriga sempre que ele chorar manhosamente, vai “estragá-lo” (como se diz popularmente), ou seja: vai ser cúmplice na produção de um hábito de representação, em que a relação entre signo e objeto dinâmico (S-OD) se torna habitual.</p>
<p>Cada vez que a mãe cede à manha de seu filho, produz um interpretante dinâmico representativo energético (S-ID). Se ela o fizer sempre, esse efeito também se tornará habitual e podemos esperar que, em poucos dias de manha, a mãe já esteja entendendo (e atendendo) os anseios de seu bebê de forma “condicionada”, sem que precise refletir conscientemente. Ou seja, a relação (S-IF), o efeito representativo, também se transformará em hábito e, conforme o bebê terá suas expectativas satisfeitas com a mesma freqüência, o objeto dinâmico do signo terá se conformado perfeitamente com a sua representação destinada (S-IF).</p>
<p>O signo-choro-manha assume, então, o estatuto de um <strong>símbolo</strong> que representa convencionalmente, para o sistema mãe-bebê, a mensagem “quero carinho na minha barriga”. É por isso que as mães dizem entender a linguagem de seus bebês e sentem angústia ao ter que o deixar com estranhos que não conhecem os gestos, gemidos e expressões que foram simbolizados no contato reiterativo entre os dois.</p>
<p>Quando o signo-choro-manha assume as vestes de um Símbolo, temos uma situação plenamente comunicativa, composta de (1) signos simbólicos (a gama de vocalizações, tonalidades, gestualidades que compõem o signo-choro-manha, compartilhados por mãe e filho e que cumpre a função de oferecer uma <em>interpretabilidade fundamentada</em>), (2) um emissor (o sistema ou quase-mente “bebê-com-vontade-de-carinho”, que cumpre o papel de objeto dinâmico) e (3) um receptor (o sistema ou quase-mente “mamãe-querendo-satisfazer-seu-filho”, que cumpre o papel de interpretante).</p>
<h2 id="toc-comunicacao">Comunicação</h2>
<p>O signo-choro-manha é o veículo que transfere do bebê para a mãe o significado expresso numa forma, que é o objeto imediato geral e interpretante imediato também gerais (abduções). Na verdade, se tomarmos ao pé da letra, toda comunicação humana, interpessoal ou de massa, dá-se da mesma maneira: a transmissão de formas por meio de signos.</p>
<p>A felicidade da comunicação, ou sucesso da semiose, ocorrerá quando signo, objeto e interpretante se acoplarem num supra-sistema capaz de realizar plenamente a significação possível que reside, como sempre, na interpretabilidade fundamentada do signo, ou seja, no objeto imediato e interpretante imediato que ele carrega consigo, ou sua carga de significância, sua informação possível esperando ser atualizada numa ilocução comunicativa efetiva (S-OD-ID) na esperança de conseguir o efeito comunicativo final (S-OD-IF): num determinado momento e contexto, o bebê faz a manha, a mãe compreende sua mensagem e atende seus desejos sabendo que há nesse ato uma cumplicidade entre os dois, uma comunhão simbólica que os une na comunicação.</p>
<p>Fica claro, portanto, que a tricotomia S-OD-ID produz <strong>repetição</strong> ou <strong>redundância</strong> para que a informação possa ser transmitida. A iteração comunicativa dá origem a uma <strong>freqüência</strong> capaz de produzir um efeito final pretendido: um “condicionamento”.</p>
<h3 id="toc-tricotomias-comunicativas" id="toc-tricotomias-comunicativas">Tricotomias Comunicativas</h3>
<p>As tricotomias comunicativas mostram como objeto, signo e interpretante fundem-se numa relação triádica genuína, gerando informação e entendimento  e permitindo o autocontrole do próprio processo de semiose.</p>
<p><strong>(S-OD-ID): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante dinâmico<br />
(S-OD-IF): Comunicação entre signo, objeto dinâmico e interpretante final </strong></p>
<h2 id="toc-a-regra-do-triangulo-da-existencia">A regra do triângulo da existência</h2>
<p>A tricotomização dos 11 elementos do signo leva à produção de 78 classes. No entanto, nem todas são logicamente possíveis. Doze delas são aberrações lógicas porque não respeitam o que chamaremos de <strong>regra dos triângulos de existência</strong>. Essa regra é necessária para preservar a realidade da segundidade na semiótica. Se o signo for um existente, por exemplo, deve estar conectado materialmente ao objeto imediato ou ao objeto dinâmico. Não se pode ter uma impressão digital, por exemplo, sem que ela esteja conectada materialmente a um dedo existente, nem se pode satisfazer o desejo de comer bolo sem que exista realmente um bolo sendo comido (ou, pelo menos, uma alucinação que garanta uma experiência ficcional de um bolo sendo comido).</p>
<p>A regra dos triângulos de existência tem duas partes:</p>
<p><strong>1)</strong> determina que não pode haver segundidade no eixo da significação sem que haja também em cada um demais eixos. Isso vale para ocorrências de segundidade em todos os elementos do eixo da significação: S, IF, S-IF e S-OD-IF.</p>
<p><strong>2)</strong> estabelece que deve haver um número de triângulos de existência sempre igual ao número de segundidades manifestas no eixo da significação. Portanto:</p>
<blockquote><p><strong>a)</strong> Se no eixo da significação houver existentes em dois períodos, então deverá haver, correspondentemente, dois triângulos de existência ligando os três eixos.<br />
<strong>b)</strong> No caso de S, IF e S-IF serem existentes, então deverá haver, correspondentemente, três triângulos existentes unindo os eixos.</p></blockquote>
<p>Há, ainda, outra observação importante ser feita: a tricotomia S-OD-ID participa tanto do eixo da Objetivação quanto do da Interpretação, de sorte que basta que S-OD-ID seja existente para garantir condições de existência para os dois eixos. Igualmente, a tricotomia S-OD-IF participa dos três eixos, de sorte que a ocorrência de um existente nessa tricotomia automaticamente produz um triângulo de existência sobre o fluxo da semiose.</p>
<p><a name="a-tabela-periodica-das-classes-de-signos"></a><a name="toc-anchor-34-12"></a></p>
<h2 id="toc-a-tabela-periodica-das-classes-de-signos" id="toc-a-tabela-periodica-das-classes-de-signos">A Tabela Periódica das Classes de Signos</h2>
<p>As 66 classes de signos podem ser arranjadas numa tabela triangular tendo como vértices as categorias cenopitagóricas (primeiridade, segundidade e terceiridade). As janelas pretas ou “buracos” correspondem às classes eliminadas pela regra do triângulo de existência. As flechas correspondem à relação lógica de ilação ou implicação material.<br />
As flechas que vão de 1 a 2, que sabemos indicar envolvimento, aqui também correspondem aos estágios da semiose: Fundamentação, Presentação, Representação e comunicação. Isso significa que a Presentação envolve Fundamentação, que a Representação envolve os dois primeiros e que a comunicação envolve todos os demais.<br />
As flechas que vão de 2 a 3, que sabemos indicar universalização, aqui também correspondem aos quatro períodos ou estágios do conhecimento: Perceptivo, Inquisitivo, Deliberativo e Científico. Isso significa que todo conhecimento começa na percepção, que a deliberação exige ambas percepção e inquisição e que o método científico é uma universalização dos anteriores.</p>
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		<title>Percepção</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 16:00:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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Percepção: um limiar semiótico?
A teoria da percepção, que Peirce desenvolveu principalmente entre 1902 e 1906 mostra-se importante ao nosso estudo das classes de signos por duas razões. A primeira e mais evidente é a clara afinidade que existe entre percepção e semiose, de sorte que uma compreensão do processo perceptivo pode iluminar muitas questões obscuras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="scattered-fragments" class="coluna-full">
<h3 id="toc-percepcao-um-limiar-semiotico">Percepção: um limiar semiótico?</h3>
<p>A teoria da percepção, que Peirce desenvolveu principalmente entre 1902 e 1906 mostra-se importante ao nosso estudo das classes de signos por duas razões. A primeira e mais evidente é a clara afinidade que existe entre percepção e semiose, de sorte que uma compreensão do processo perceptivo pode iluminar muitas questões obscuras sobre a semiose do signo propriamente dito. Ambos os processos estão assentados sobre inferências lógicas e podem ser analisadas a partir de alguns elementos em comum, como objeto imediato, objeto dinâmico, interpretante imediato e abdução. É por isso que, segundo Eco (1997, p.110) “torna-se embaraçoso diferenciar percepção de significação”.</p>
<p>A segunda razão para nos determos na teoria da percepção antes de nos aprofundarmos nas minúcias da ação do signo é que ela foi elaborada na mesma época em que Peirce ampliava o número das tricotomias do signo para três (1902-3) e, em seguida, dez (1905). Certamente não há coincidência nisso. Até o início da década de 1900, ele via a faneroscopia e a semiótica como ciências distintas, cada qual ocupando um lugar em sua classificação das ciências. A partir de 1906, porém, Peirce parece ter concluído que não há um corte seco separando semiose e fenômeno e sua pesquisa com os signos assumiu tonalidades cada vez mais fenomenológicas (Savan apud Liszka, 1996, p.126). Parece legítimo conjecturar que os resultados de sua pesquisa com a percepção tenham feito com que os limites entre fenomenologia e semiótica fossem se diluindo até praticamente desaparecerem. Como afirma Santaella (1998, p. 51) “a percepção tem uma natureza híbrida entre a fenomenologia e a semiótica. Pode-se dizer que ela ocupa o ponto exato em que esses dois reinos se cruzam”.</p>
<p>Para os comentadores peirceanos, então, o desafio passou a ser encontrar a correta correspondência entre os termos da teoria perceptiva e aqueles usuais na teoria do signo, de forma que uma se acomode naturalmente na outra.</p>
<p>Em nossa Tabela Periódica, a percepção corresponde à primeira fase da  inquirição. Para nós, <strong>o percepto é, simplesmente, todo signo cujo objeto  imediato é uma primeiridade ou uma segundidade. Por outro lado, todo  signo cujo aspecto do objeto imediato é uma terceiridade é um percipuum,  ou envolve um percipuum.</strong></p>
<p>Por essa simples regra, toda distinção entre percepção e significação desaparece.</p>
<p><strong><br />
</strong></div>
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		<title>Comunicação</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 15:51:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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A terceira folha do trevo
O estudo das propriedades formais dos signos é o papel do primeiro ramo da semiótica, que Peirce chamou de gramática especulativa. O segundo ramo é o da lógica Crítica, ou o estudo das condições que permitem ao signo representar verdadeiramente. O terceiro ramo, finalmente, é o da comunicação, que Peirce também [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="scattered-fragments" class="coluna-full">
<h3 id="toc-a-terceira-folha-do-trevo">A terceira folha do trevo</h3>
<p>O estudo das propriedades formais dos signos é o papel do primeiro ramo da semiótica, que Peirce chamou de gramática especulativa. O segundo ramo é o da lógica Crítica, ou o estudo das condições que permitem ao signo representar verdadeiramente. O terceiro ramo, finalmente, é o da comunicação, que Peirce também chama de retórica ou metodêutica – o estudo da transferência de informação e dos métodos de pesquisa que nos servem na busca pela Verdade. Peirce afirmou que o ramo da comunicação era o mais importante dos três, pois levaria às mais importantes descobertas filosóficas. No entanto, a maior de sua pesquisa em semiótica foi dedicada à gramática especulativa: uma busca intensa, quase obsessiva, pela correta definição de signo e a classificação de seus tipos possíveis que durou quatro décadas.</p>
<p>A razão para isto é simples: a gramática, por ser mais fundamental e universal, é necessariamente o ramo que suprirá, à lógica e à retórica, aqueles fundamentos que lhes permitirão atingir pleno desenvolvimento. Não é possível avançar a compreensão da comunicação sem, antes, resolvermos alguns dos problemas que cercam a definição e a classificação dos signos. Peirce sentiu isso profundamente. Seu sistema lógico mais importante, baseado em diagramas (os grafos existenciais), permaneceu incompleto, para sua enorme frustração, em grande parte porque alguns de seus aspectos dependiam da compreensão de como o signo evolui ao representar seu objeto. A comunicação, por sua vez, depende da lógica e da gramática e não há meios de ela se desenvolver independentemente de suas correlatas.</p>
<p id="scattered-fragments" class="coluna-full">É por isto que este trabalho dedica-se à gramática especulativa na esperança de que, ao clarearmos algumas questões obscuras sobre o funcionamento dos signos, uma teoria da comunicação possa ser construída com bases mais sólidas do que as que temos hoje.</p>
<p>A definição mais geral possível diz que a comunicação é a transmissão de informação, sem que precisemos nos preocupar com o que é a informação, por onde passa e como se dá sua transmissão. Basta que um estado de coisas se altere, seja na realidade do mundo externo a nós, ou no interior de nossas mentes, para que constatemos a ocorrência de comunicação.</p>
<p>Se a informação flui por toda parte, como têm demonstrado a física e a biologia, devemos considerar a comunicação como um componente ontológico da realidade. Essa é a vanguarda da pesquisa em comunicação e semiótica, cujas possibilidades teóricas têm atraído pesquisadores de várias áreas científicas.</p>
<p>A comunicação não é a mesma em todo canto, porém. É preciso estabelecer gradiente comunicacional que parta da transmissão de informação no nível da matéria, fortemente constrangida pelas leis da Física, para a atingir as formas de comunicação mais livres e criativas, como a que ocorre entre seres inteligentes e dotados de consciência. Nöth afirma não ser possível postular uma fronteira nítida entre fenômenos comunicativos e não-comunicativos na natureza, mas deve-se conceber uma transição gradual que vai dos modos de interação proto-comunicativas mais rudimentares em direção aos mais complexos. (apud Santaella, 2001, p.17).</p>
<p>Seguindo a divisão de categorias de Peirce, é possível afirmar que existe uma qualidade de comunicação que perpassa todo o universo. Pode ocorrer de tal qualidade de comunicação transformar-se em existência local, permitindo a transmissão de informação. E esta única transmissão pode vir a se constituir como meio para um fluxo de sentido.</p>
<p>Consideraramos a comunicação, portanto, como um produto da intencionalidade, ou “mentalidade”, que brota desde os níveis mais elementares da natureza até atingir sua forma mais elaborada na autoconsciência humana (Short, 2004, p. 14). Adotamos nesse trabalho a “grande visão” da semiótica peirceana, que tem sido defendida por Deely (1994). Essa concepção da semiótica é capaz de abarcar inclusive os processos físicos da natureza, considerados como resultado da ação dos signos, ou semiose.</p>
<p>É a partir desse ponto de vista que defendemos que semiótica e comunicação podem ser unidas numa mesma ciência. A razão disso é que a ação dos signos, ou semiose, corresponde precisamente à definição essencial de comunicação acima: onde houver semiose, haverá uma alteração no estado de coisas, o que é um sinônimo de fluxo de informação.</p>
<p>Essa concepção ampla da comunicação, baseada numa semiótica holística, costuma eriçar os pêlos dos teóricos que insistem numa visão logocêntrica da área, para não dizer midiacêntrica. Para eles, a ciência da comunicação deve restringir-se à cultura humana (Eco, 1977); restringem ainda mais o campo para concentrar apenas nos meios de comunicação de Massa. Essa restrição é, na minha opinião, uma forma de perversão intelectual, pois transforma o acidente em norma. A comunicação não nasce com o tambor, com o livro, com o telégrafo, jornal, televisão ou qualquer outra tecnologia. Ao contrário, essas tecnologias são criadas para ampliar, melhorar, tornar mais eficiente um processo de comunicação no qual estamos imersos e do qual depende a sobrevivência de todo sistema organizado, seja ele um indivíduo ou uma sociedade complexa.</p>
<p>Essa era certamente a opinião de Peirce na última fase de sua produção intelectual. Em 1903, ele afirmou que o universo inteiro é um signo semelhante a uma pintura impressionista (CP 5.119). Em 1905, escreveu que “um signo se conforma  perfeitamente com a definição de um medium de comunicação” (MS 283). Já em 1911, definiu o signo usando o jornal como exemplo: “se uma pessoa lê um item de notícia num jornal, seu primeiro efeito será provavelmente o de causar nessa mente o que pode convenientemente ser chamado de uma “imagem” do objeto, sem que se faça qualquer julgamento sobre sua realidade” (MS 670).</p>
<p>Do Universo a uma página de jornal ou um pensamento, portanto, há um fluxo de informação que nos une a todos como signos.</p>
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